A busca da maturidade emocional
Também conhecida como Inteligência Emocional
Podemos considerar a existência de dois tipos de inteligência: a racional e a emocional.
A primeira é medida pelo Q.I.(Quociente de Inteligência/Intelectual). Relaciona-se com a capacidade de “aprendizado” e de armazenamento de “conhecimento”. Sugere-se que as pessoas com alto QI podem ser capazes de realizarem “grandes coisas” (não necessariamente boas). A Inteligência Emocional (Quociente Emocional= Q.E.) relaciona-se com a capacidade de “compreender” as coisas e as pessoas, e, ao fazer bom uso desta compreensão, consegue realizar “boas coisas”, sendo esta mais necessária e interessante.
O sucesso acadêmico, financeiro, profissional depende muito mais da I.E.
A busca da maturidade emocional, como tudo na vida é um processo, é gradativa e deve ser contínua. Permite-nos identificarmos as emoções envolvidas, as nossas e das pessoas com quem nos relacionamos (pois o homem é um ser em relação e dependente delas), e, administrá-las da melhor maneira possível, proporcionando um melhor resultado. A sua conquista permite, e, é o que devemos buscar: - entender a situação à luz da realidade. Procurando administramos os temores e dificuldades naturais que sempre nos causam transtornos; como os medos, as fantasias criadas no imaginário das pessoas, as frustrações, os pré-conceitos estabelecidos sobre as pessoas e os fatos, as inquietações e desconfortos provocados pelo sentimento de raiva e ciúmes; etc. Poucas pessoas conseguem porque não é fácil, mas, é libertador. – sermos livres para realizarmos nossas escolhas. E respondermos, responsavelmente, por nossas decisões e conseqüências. Não podemos transferir aos outros, o que nos compete realizar, e, nem “arrumarmos” desculpas quando fracassarmos e sim nos corrigirmos, nos prepararmos convenientemente. “O homem nasceu para ser livre, destinado a vencer. A liberdade implica em responsabilidade”. – agir sempre com o máximo de isenção, utilizando a razão, o bom senso, escolhendo as estratégias que mais se aplicam na circunstância. – aceitar de forma espontânea os outros, entendendo os limites e facilitando que o outro desenvolva as suas possibilidades. - desenvolver: o bom humor, o autoconhecimento, a independência, a generosidade, o cooperativismo, a maior tolerância e aprendemos a lidarmos melhor com as críticas (ninguém gosta da crítica), a capacidade em sermos pró-ativos e mantermos uma atitude de vencedor. A criatividade, assunto do próximo artigo é um grande facilitador
O desejo do aprendizado e do aperfeiçoamento da competência em lidarmos com as nossas emoções, e com a rede de relações que estabelecemos na vida (pessoas e o mundo) implica numa necessidade de transformação e aplicação. Como o homem é um projeto, e este nunca estará pronto, é um aprendizado constante. Pablo Neruda afirmava que nunca seremos os mesmos de outrora. Hoje somos um pouco melhor do que ontem, e, um pouquinho pior do que poderemos ser amanhã.
A vida pode ser considerada para a maioria das pessoas como o exercício da ilusão e da vaidade! Inconscientemente ou não.
A maturidade emocional, considerada como importante conquista na perfeição pessoal, é uma busca e não um destino. Não é um fim em si mesmo; mas, devemos construir um conjunto de meios para estarmos sempre no caminho de quem busca o aperfeiçoamento em ser uma pessoa que possa: - ter um olhar com menos ilusão e vaidade; - aceitar a vida com menos sofrimento; - compreender uma situação com mais tranqüilidade; - ser menos inquieta e ansiosa; - mais determinada e realizadora; - preocupada mais com os outros do que consigo mesmo. Onde a realização em benefício do coletivo é mais importante do que a individual (este é um significativo sinal de maturidade); - que consegue ver o lado bom, principalmente em tudo que parecia ser só ruim no primeiro momento.
A Inteligência Emocional possibilita a pessoa: - ser líder e não chefe; - entender a importância e a valorização da humildade, pois, reconhecer o valor dos outro sempre será compensador; - administrar melhor as finanças; - selecionar os sonhos; os possíveis de serem realizados e os efetivamente necessários; - sentir prazer numa vida simples, consistente, contemplando o essencial e não o supérfluo; - na vida familiar, um ser o facilitador na vida do outro, buscando realizarem o cumprimento das metas determinadas e as necessidades pessoais; - aprender com as experiências, produzindo sabedoria para novos enfrentamentos; - a existência de um diálogo produtivo e elegante; - as pessoas reconhecerem que são as únicas responsáveis por suas alegrias e frustrações, e, em que circunstâncias aconteceram (existem coisas que irão ocorrer independente de nossa vontade e ações) para a pratica consciente ou correção; - aprender a administrar as dificuldades e escolher o remédio mais adequado para a solução, ou para suportar a aflição com determinação e dignidade; -sentir prazer em colaborar para o sucesso e bem estar do outro.
Reflexões:
“não existe verdadeira inteligência sem bondade”: Ludwig van Beethoven. “a estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na retaguarda para ver”: Bertrand Russel. “o homem chega á maturidade quando encara a vida com a mesma seriedade que uma criança encara a brincadeira”: Nietzsch. “qualquer um pode zangar-se – isso é fácil. Mas, zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e de maneira certa – não é fácil”: Aristóteles. Textos judaicos: “o topo da inteligência é alcançar a humildade”. “O bom senso pode ser considerado uma dádiva, mas a inteligência é uma conquista”. “o ignorante afirma, o sábio dúvida, o sensato reflete”: Aristóteles. “a vida é um grande espetáculo. Só não consegue homenageá-la quem nunca penetrou dentro do seu próprio ser e perceber como é fantástica a construção de sua inteligência”: Augusto Cury
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Fase da vida: Adolescência
Adolescência
É a fase intermediária do desenvolvimento humano, marcada pela transição da infância para fase adulta. Tem como características principais as alterações: físicas, mentais e sociais. Nesta fase ocorre o processo de distanciamento do comportamento, da proteção e dos privilégios da infância, condições necessárias para o bom desenvolvimento de uma pessoa; e, concomitantemente, inicia-se o processo de aquisição das competências que nos capacite a assumirmos os deveres e papeis de adulto.
Lembro que na infância passei grande parte dela no colo da minha mãe, mesmo já grandinho. No final da adolescência, passei grande parte da minha juventude com algumas futuras mães sentadas no meu colo, mesmo ainda não adulto.
Adolescência é o mesmo que juventude?
Ás vezes são palavras usadas como sinônimos. Não significa a mesma coisa, o mesmo processo, o mesmo período. Existem literaturas que classificam a adolescência no período de 11 aos 21 anos. A ONU e a OMS, consideram que juventude é a fase compreendida entre os 15 e 24 anos de idade. Contudo, está aberta a classificação por idade, conforme considerações nos diferentes países com suas diferentes culturas. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a faixa etária para o adolescente entre 12 e 18 anos. Outras literaturas consideram que dos 18 aos 29 anos, é considerada “fase inicial do adulto”, sobrepondo-se à juventude. Conclui-se que a juventude (processo específico de amadurecimento) é um período da adolescência (processo maior com transformações constantes). A possibilidade dos seres humanos se organizarem para um entendimento comum, parece decididamente não ser possível neste mundo, pelo menos neste século. É importante sabermos que a adolescência é um termo utilizado sugerindo o processo de desenvolvimento bio-psico-social do ser humano. A adolescência não é marcada pelo final do desenvolvimento biológico e sim do sócio-cultural, por isso que a maior idade é considerada aos 18 anos, marcando o final desse desenvolvimento.
Puberdade é o mesmo que adolescência? A puberdade também não é a mesma coisa que adolescência, e, sim um período caracterizado por mudanças fisiológicas importantes. Como: o surgimento dos pelos pubianos, o crescimento dos testículos e desenvolvimento das mamas. Na puberdade o corpo do adolescente desenvolve-se física e mentalmente, tornando-se possível a possibilidade da gravidez. O período de puberdade, dentro da adolescência, varia entre os sexos, nas meninas ocorre dos 9 aos 13 anos, e, nos meninos entre 10 e 14 anos, conforme o clima da região; nos locais mais quentes o processo inicia-se mais cedo. A puberdade altera o estado emocional do adolescente e também o seu comportamento. É caracterizada: por mudanças físicas e psicológicas; por alterações hormonais despertando a sensibilidade sexual, já interferindo no desejo sexual; por isso é que nesta fase a maioria dos adolescentes, iniciam a prática sexual.
Portanto, na fase chamada de adolescência, ocorrem duas fases demarcando o início e final do processo: a puberdade e a juventude.
O dia-a-dia da infância nos deslumbrava, e, o mundo parecia ser uma eterna fantasia. Pouco contato com a realidade. Nossa imaginação valia mais do que o conhecimento. Assim saímos da infância para entrarmos na adolescência. Tudo na vida é um processo. Excluindo o acidente, as transformações ocorrem lenta e gradualmente. Não dormimos infantes e acordamos adolescentes. Como não dormimos jovens e acordamos idosos. Ao entramos na fase da adolescência, carregamos um brilho especial no olhar, como de quem vai viver os anos dourados da vida. Ansiosos, estendemos os braços para abraçar as pessoas e agarrar o mundo. A beleza, juventude e o entusiasmo andam próximos, são companheiros. Esta fase é a deliciosa desculpa para justificarmos nossos atos. Explicam os nossos ideais, nossas loucuras, nossa contagiante explosão de vitalidade. Ah! Carregamos sempre um sorriso especial, que maliciosamente guardamos para usarmos na hora conveniente. Este, seguramente, é um pouco da criança que os anos nunca levarão. Vivíamos em função da família, da escola e do que poderíamos fazer juntos com os amigos. A sede do clube da nossa vida eram os quartos de dormir, onde nos confidenciávamos e planejávamos nossas estratégias. Chegamos ao ginásio, depois no colégio e na universidade, carregando na mochila muitas dúvidas, incertezas, sonhos, a saudade de alguns amigos que se foram para outros lugares, e, a magia do coração, dividido entre a esperança e a razão.
Cristiane Galvão diz: ”fui muito feliz na minha infância e isso me garantiu uma adolescência bonita com uma juventude cheia de esperanças”.
“A infância continua. Os brinquedos é que vão mudar” – Carlos Tullio Schibuola.
As meninas registravam os acontecimentos das suas vidas nos diários. Registrei as minhas em contos, crônicas e poesias. As meninas já sonhavam com o príncipe encantado, começavam a formar o “complexo de cinderela”. Eu como os demais meninos pensávamos em descobrir os mistérios do sexo, e, do que eram formadas as meninas, seus peitos, sua boca e seu brinquedinho sexual de abrir e de fechar, que sacanagem, o nosso era de armar, e, armava com a maior facilidade. Que saudades!
Vivi na minha adolescência, uma grande paixão correspondida. Valéria foi estrela principal da minha peça de teatro na Broadway ou do meu filme no cinema de Hollywood. No final da minha juventude, vivi duas grandes paixões. Valéria e Cristina se revezavam na minha vida de emoções. Foram minhas grandes musas, fontes inspiradoras para construção das minhas poesias. Sou testemunha que é possível vivermos dois amores, com os mesmos interesses, ao mesmo tempo. O fundamental era saber lidar com eles e que direção seguir. Até chegar o dia em que precisaria sacrificar uma para a outra viver em plenitude. Era com a Valéria que iria viver a vida, prazerosamente. Cristina recusava-se morrer nos meus pensamentos. Depois aprendi a viver com o sentimento agradável que o pensar e escrever para ela, em mim produziu um dia. Valeria era tudo que eu queria ter. Cristina representava as coisas que não eram possíveis. Cristina sabia da existência da Valéria, mas, esta nunca soube da existência da outra. Já casados, fomos ao casamento da Cristina, e, a Valéria fez um único comentário: “vocês já se gostaram, pois, se olharam de forma diferente”. O olhar, como o gesto, são reveladores. Mais do que pensar, as mulheres “cismam” e raramente se enganam.
Deize havia se mudado da minha rua, sua presença ficou esquecida na confusão da memória do tempo. Teve representação importante na construção da minha identidade, foi o despertar pelo interesse pelo sexo oposto, me estimulou na formação da minha sexualidade. Com a Valeria deu-se a descoberta e realização dos principais fatos da minha vida. Quando adolescentes nos demos ás mãos, só a larguei no dia do seu sepultamento. Ela morreu como queria, não pela doença e tipo de morte, mas, de mãos dadas e eu contando histórias que eram sua grande descontração; após sete meses de luta contra um câncer de esôfago. De mãos dadas inventamos nossas vidas, construímos nossas possibilidades e registramos nossas realizações em forma de pessoas conscientemente realizadas, com a formação de uma “linda” família. Fomos muito felizes, o que me fez acreditar que era dado ao ser humano apenas à oportunidade de viver uma única história de amor na vida. Mesmo que muito difícil, em função da existência de histórias construídas e que influenciam significativamente nossos dias, posso acreditar ser possível vivermos mais de uma vez. Um foi testemunha da vida do outro. Nós sempre nos bastávamos. Com ela me realizei como pessoa, homem, pai, amigo, parceiro, amante, viajante. Nosso estilo de vida foi fonte de inspiração de um poeta, de cultura simples e bem formada, que nunca se permitiu agonizar. Formamos uma família organizada (até a sua morte) e emocionalmente estável, como vivi na infância. Segundo Goethe, a vida é a infância da imortalidade. Minha angústia, referente aos meus filhos, mesmo adolescentes, era produto da reflexão de Augusto Cury: “perder a mãe na infância é perder o solo onde caminhamos. É o último estágio de dor de uma criança”.
O universo tem alma feminina. Elas se esforçaram para me fazerem machista; não conseguiram (normalmente sempre conseguem o que querem). São elas que educam e transformam os homens. Nosso maior aprendizado foi com o sexo feminino (homens e mulheres aprendem a ser homens e mulheres com as mulheres).
Aprendi com elas a importância da atenção, do respeito, do carinho, do elogio na hora certa, de valorizar o feito do outro, em ser educado e gentil, e, da fofoca também (faz bem para a saúde). Foram esses os valores que vivi com minha mãe e irmã, com tias e primas, com as amigas da minha mãe e da minha irmã.
Percebi com clareza que vivia numa família de forma agradável e feliz; era ótimo o convívio dos nossos dias e projeções de outros. Acreditava que esta era a forma normal de viver em todas as famílias. Demorei a entender que não era assim em todas as casas. A principal lição que aprendi foi valorizar o outro em função do que ele representava para nós, não do quanto tinha e nem de quem era. Isto parece ser uma constante em todas as fazes da minha vida. Nada era comum na minha casa, apesar de termos as mesmas coisas que os outros tinham. Nós transformávamos um simples leite com chocolate e um pedaço de bolo em festa. Éramos alegres, recebíamos bem todas as pessoas. De vez em quando, geralmente de domingo na volta do Clube, meu pai aparecia com um imigrante ou migrante em casa para almoçar; pareciam velhos amigos pela facilidade com fluíam as conversas (sentar-se a mesa com alguém e partilhar uma refeição é o procedimento social mais próximo entre as pessoas). Após a saída do convidado, e, não raras vezes meu pai o acompanhava de automóvel até o local mais fácil para “pegar” o transporte público, éramos informados que aquela pessoa encontrava-se perdida, foi procurá-lo para uma informação e acabou sendo convidado a partilhar uma refeição à mesa conosco. Não foi essa pessoa a única que ganhou alguma coisa, neste caso o almoço e a informação; nós também havíamos ganho com a companhia das pessoas que sempre tinha um caso para contar, sobre a sua origem, do motivo de suas andanças e suas considerações sobre a vida, sempre interessantes e sofridas, fato que me estimulou a ser um colecionador de histórias e estudioso do comportamento humano.
Algumas coisas faziam o meu pai feliz: o almoço de domingo com a família; as reuniões com os irmãos, cunhados, sobrinhos, agregados. O vinho e o charuto, o faziam muito feliz. Estas eram para ele o máximo de prazer que a vida poderia oferecer.
A presença do pai tem grande significado segundo Freud: “não me lembro de nenhuma necessidade da infância tão grande quanto á necessidade da proteção de um pai”.
Herdei dele o interesse pelas assinaturas, do jornal “O Estado de São Paulo” e da revista “Seleções”. Os primeiros livros que tivemos para a leitura eram da coleção o ”Clube do Livro”, assinatura de meu irmão, cinco anos mais velho do que eu, e, vinte anos mais inteligente.
Em casa tínhamos uma cultura mediana. Todos, inclusive minha mãe, aprendíamos música, solfejo, piano, harmônica. Mas, o que mais nos alegrava eram os LPs da nossa coleção, tocadas no aparelho Hi-Fi, o mais moderno da época.
Minha casa era o local da rua onde tudo acontecia. Era a nossa sede, onde não só programávamos as atividades como também as realizávamos. Nasci e cresci, me desenvolvi, no meio de gente alegre, feliz, de bem com a vida.
Conseguimos ajuntar na adolescência, o essencial do que havíamos projetados na infância.
”A família é que nem varíola: a gente tem quando criança e fica marcado o resto da vida” – Jean Paul Sartre.
Os bailinhos aconteciam regularmente, era a forma que tínhamos para nos encontrarmos e celebrarmos os encontros. Os formandos do ginásio e colégio organizavam os bailes para arrecadar dinheiro, chamados de bailes de pré-formatura; o local era normalmente uma garagem, espaço que os pais cediam. Poderia ser no salão de festas de uma casa, ou na sala da casa que transformávamos em salão. Os LPs eram escolhidos, todos ofereciam os que eram considerados melhores para dançarmos, e, sempre alguém se oferecia para funcionar como D.J.,este dançava também. Bebíamos “Cuba Libre” e “Hi-Fi”. Dizíamos que o dinheiro arrecadado seria para ajudar nas despesas do grande e esperado Baile de Formatura, normalmente no Clube Pinheiros ou no Salão Nobre do Aeroporto. Os jovens vestidos com o tradicional smoking, as meninas de vestido longo, com luvas e deliciosamente bonitas.
Parceiros nos bailes eram as amigas ou a amiga das amigas. O mundo era uma província. Quem não fosse seu primo, era primo do seu primo. O comportamento exigia respeito, éramos vigiados. No meio do salão com outras pessoas dançando em volta, experimentaríamos o máximo de prazer (em função da cultura conservadora e medo das conseqüências do sexo), dançar de rosto colado; o que permitia um discreto roçar das coxas; mais audacioso era colar o rosto, o aroma era de Miss France e o cheiro do laquê para fixar o cabelo; sentir as coxas delas no meio das nossa coxas, era glorioso. Este motivo nos vestia de orgulho e tínhamos o prazer de contar para os amigos do grupo. Constrangedor era apenas o que fazer quando a música parava de tocar e tínhamos que desfazer o par, com o circo armado pela conseqüência da genitália se assanhar com este ato libidinoso, que despejava na cueca o troféu deste encontro delimitado. A conseqüência era pinto duro e a cueca melada. Era muito bom. Que saudades! Não da cueca melada, mas, do pinto duro. Assim é a vida, as melhores coisas acontecem em épocas não coincidentes com a possibilidade e o fato. Tínhamos forças suficientes para rompermos orifícios, o mastro suportava até uma toalha de banho molhada, mas, não tínhamos a facilidade para exercitá-lo na pratica do sexo. Hoje temos tudo, mas, infelizmente somos limitados pela dificuldade do mastro elevar-se e manter-se em pé. Ao meio pau é sinal de dificuldade para a ação. Não melamos mais a cueca; agora as deixamos impregnadas de urina, devido hiperplasia prostática. Nesta época, os bailes eram as deliciosas estratégias para dois corpos poderem ao máximo se aproximarem.
Diferente das inúmeras possibilidades e permissividade dos jovens hoje para a prática do sexo, a minha geração tinha que esperar muitos anos para fazer amor; o sexo fazia parte da relação mais importante entre duas pessoas, prevalecia o ato de amar. Tínhamos que esperar muito tempo e investir muito, emocionalmente e financeiramente, sexo só depois do casamento. Então havia apenas duas maneiras para a prática sexual. Uma, o sexo pago e realizado com profissionais; existiam os locais onde contratar os seus serviços. Outra forma era o sexo muito bem pago, envolvendo o casamento. Machado de Assis dizia que Deus na sua infinita bondade, para que o homem pudesse experimentar a felicidade, criou a fé e o amor. O diabo invejoso, para desfazer a possibilidade da felicidade, fez o homem confundir a fé com religião e amor com o casamento.
Acostumamos, com o sentimento e idéia, que o sexo é conseqüência de um precedido e alimentado desejo. Deve ser celebrado. É um evento. Hoje é apenas o atendimento a uma necessidade fisiológica ou social, criando-se entre as meninas o interesse em quantificar os parceiros para suas realizações, movidas por outros interesses além da vontade para atender uma necessidade.
Algumas literaturas e pessoas comuns anunciam que a atual geração, além de terem descoberto os mistérios do sexo, tornaram-no mais simples e permissivo. O que observo é que alguns questionamentos são traduzidos pelas mesmas dúvidas, e, o que existe de fato é uma liberdade acentuada e uma liberação nos interesses e valores.
É difícil falar de sexo, pois, junto com dinheiro e poder, são as coisas em que as pessoas mais mentem. Podemos falar do nosso entendimento e prática sexual, a dos outros depende da cabeça de cada um.
O combustível da vida dos adolescentes é a paixão; sempre estive apaixonado, nunca por artistas. Sempre por pessoas e coisas reais, capazes de corresponderem positivamente à minha paixão. Sempre pude escolher por quem queria estar apaixonado. Não carrego frustrações, só realizações. Mais ainda, tinha o controle do tempo em que deveriam durar essas paixões, elas me serviam de inspiração para os ensaios na formação de um poeta, que como os demais sempre fingi aparentar ser real o que realmente sente. Assim esculpi o meu ideal de perceber e declamar o que de melhor existia nas minhas musas: Deise ( apenas um despertar), Valéria (paixão que começou em vida, na adolescência, e, durou mais de 40 anos, mesmo após a sua morte), Cristina (que traduz as minhas necessidades construídas no meu imaginário). Agora o ensaio do último vôo de uma albatroz ferido.
Tive algumas paixões ocasionais, por poucos momentos, na realização de uma festa, no encontro de colegas ou em um evento, escolhia alguém para sentir um sentimento especial, a outra pessoa saber ou não era um simples detalhe em que nada iria alterar a minha disposição. A capacidade de nos apaixonarmos, de sentirmos amor por algo ou alguém, de querermos bem, é hormonal, é uma característica pessoal. A manutenção dos sentimentos, é que deve ser compartilhada e colaborativa, exigindo a participação do outro envolvido neste maravilhoso processo. Antes de conhecer a obra de Michel Odent, já vivia a “Cientificação do Amor”. Leonardo Felice Buscaglia foi o grande mestre na arte de amar. Conservo até hoje esta característica, entendo que para a maioria das pessoas não é possível escolher a quem se vai amar, simplesmente se aceita ou não.
Na minha rua moravam algumas mulheres interessantes. Mas, o que prevalece na escolha do homem, mais do que a beleza física é o jeito. Construímos um ideal de beleza e procuramos este modelo. Havia uma menina que preenchia todos os quesitos para despertar o meu interesse para uma relação de homem e mulher, sem enumerá-los e qualificá-los, fiz o pedido formal para a época e fui falar com a mãe dela. Tinha eu 17 anos, ela apenas 14; fui quase um pedófilo.
A paixão foi-se transformando em amor e este se fortalecendo com o tempo. A paixão é sentimento, dolorido e ansioso, produto de reações bio-psicológicas, com ação bioquímica. O amor é um sentimento que muda com tempo, em intensidade e forma, mas, se persistir, sempre será amor. Éramos amantes e amoráveis. Tivemos dois filhos, principal razão e sentido para a minha vida; cuidar deles e dos meus alunos é a vocação principal para manter-me vivo. Valéria e eu construímos a nossa família, influenciados pelos sonhos idealizados num período de dez anos, o tempo do nosso namoro. Sonhamos (sonhos possíveis de serem realizados) e realizamos nossos sonhos. Trabalhamos intensamente, ela professora na rede municipal de educação e a principal executiva em benefício da família. Vivermos bem era o nosso destino; dedicamo-nos muito para essa conquista. Atender as necessidades das pessoas que compunham a nossa família e a grande família, era o que nos movia e conferia o sentido que dávamos para as nossas vidas, procurando influenciar positivamente a vida dos outros.
Em conversa com os alunos, dizia que quando era jovem, tinha dois grandes desejos e que iria perseguir conscientemente a possibilidade de realizá-los. O primeiro desejo era poder encontrar uma mulher para amar (considero que na relação homem e mulher é o homem quem ama, a mulher é amada; e, será uma parceira maravilhosa, coisas que só as mulheres sabem fazer, se reconhecidamente valorizadas); alguém para chamar de querida, de fazê-la sentir todos os meus afetos, de ser a mãe dos meus filhos e que eu cuidaria com alegria, prazer e incessantemente. O segundo desejo era escolher uma profissão onde me sentisse útil (necessário para a sociedade), feliz para trabalhar bastante, e, ganhar dinheiro suficiente para manter a minha família e permitir a realização de algumas vontades e necessidades, inclusive experimentando prazeres que fortaleceriam a nossa união e a certeza de estarmos vivendo uma boa vida (passeios, bons restaurantes, cinema, teatro, shows, viagens, sítio, apartamento na praia, carro novo, reuniões com os parentes, boa educação para os filhos, boas roupas,etc.).
No dia do seu sepultamento, agradeci às pessoas pelas suas presenças, e, proferi palavras de agradecimento a Deus pela oportunidade que me proporcionou de ter conhecido, convivido e formado uma família com aquela com quem vivi uma história de amor. Devido sua morte e com os filhos ainda adolescentes, assumi a função de pai e mãe. Pude perceber a diferença de sentimentos que existe na função de cada um; até então tinha sido apenas o provedor, agora seria também o cuidador. Na vida, nada se compara ao amor de mãe, até isso minha esposa me possibilitou viver, o mais sublime de todos os amores. E mais prejudicial também, pois,não permite os filhos prepararem-se convenientemente para a vida (que implica em sofrimento); protegemos, prejudicialmente, os nossos filhos. Há 15 anos exerço uma dupla função.
O sucesso na nossa relação foi conseqüência da vontade e dedicação para que desse certo, somado à confiança. Carinho, atenção, respeito, tesão (no sentido amplo), surgiam naturalmente.
A adolescência (puberdade e juventude) é marcada pelas descobertas e pelas conseqüências das experiências. Este tempo foi marcado pela iniciação: do namoro, à leitura, à música e formação do gosto musical, ao reconhecimento da atração, a disposição para o sexo, a forma de sermos nas relações sociais para nos mantermos no grupo e sua importância, ao distanciamento do convívio familiar, etc.
Pertencia, por interesse em conhecer outras pessoas e interesses em experimentar outras formas de vida, a vários grupos. Algumas pessoas se iniciavam no caminho das drogas. Preferia trocar de grupo do que experimentar a droga para fazer parte do grupo; nunca tive curiosidade de saber sobre o sabor e efeitos. A minha alegria, a vontade de dar certo, de conhecer pessoas, coisas e o mundo, me sustentavam e bastavam.
O grupo era formado de pequenos grupos, estes eram organizados conforme o interesse e afinidades; havia pessoas com as quais jogava futebol, outras para ir ao baile, estudar, ir em casa para escutarmos música, ir ao cinema, ir paquerar, assistir televisão em casa. Sempre havia pessoas que poderiam circular por vários grupos, mas, poucas faziam parte de todos os grupos, só os amigos considerados inseparáveis. Havia o amigo predileto para irmos na “zona” e contratarmos o trabalho secular daquelas que chamávamos carinhosamente de “primas”. As prostitutas eram o nosso “desabafo”. Mais gostoso ainda era contar para o grupo como tinha sido a nossa aventura, sempre carregadas de exageros. Gostávamos que as pessoas fizessem uma imagem positiva de nós (nada mudou ainda hoje). A minha primeira experiência sexual foi aos 14 anos, com a “prima“ Mariazinha, no apartamento dela, perto do Largo do Paissandú, que não era mais largo do que o duto vaginal que fui conhecer. Alguém me forneceu o endereço e lá fui eu com um amigo. Ele quis ser o primeiro, eu iria na sopa dele (esta era a expressão de quem ia depois). Com ele houve uma falha técnica, o seu brinquedinho sexual não armou, não gozou. A maior preocupação dele não foi o dinheiro gasto e nem a abrochada, seria a gozação do grupo. Me fez prometer que eu nunca contaria para o grupo. Eu cumpri, não contei para o grupo, contei individualmente (perder a oportunidade causa maior frustração do que o prazer de ter prestigiado o amigo). Ainda bem, não teve sopa. Com ajuda incessante da “prima”, o meu brinquedinho se armou, introduzi no conduto que a vagina precede e depositei os fluidos da minha realização, com seu odor característico, o cheiro do sexo consumado. Como o pagamento foi adiantado, tornei-me a vestir (essa é a pior hora do sexo), fui embora satisfeito por ter cumprido a minha obrigação de homem, que se iniciava naquele homúnculo; mas, preocupado. Ou meu pênis era muito fino ou aquele canal tinha proporções de difícil mensuração. Fosse hoje, seria mais fácil, eu simplesmente dobraria o meu pênis em tantas vezes fosse preciso. Um dia perguntaram para o Vinicius de Moraes, se ele nascesse novamente, quem ele gostaria de ser? Respondeu ele: eu mesmo, só que o pinto um pouco maior. Eu responderia: eu mesmo só que com o pinto um pouco mais grosso para poder enfrentar a Mariazinha em melhores condições. Fiquei conformado ao ter o entendimento que lá era apenas um local para se despejar espermatozóides. Não senti o que mais queria; a resistência natural de uma penetração até a completa realização e a vontade de querer mais. Sexo que não deixa saudades é tão prazeroso e comum como urinar e evacuar. Voltei outras vezes à casa da Mariazinha, para apresentar aos outros iniciantes e realizar o meu descarrego; muito mais devido à vergonha que teria de passar no grupo, por não ter “ido” do que pela vontade. Interessante, adolescente não faz nada só. Até para se masturbar precisa da presença de uma mulher, contida na revista ou no imaginário. Progredi e tornei-me cliente da Regina, uma “prima” mais sofisticada. Parecia que meu pênis havia aumentado de volume, já sentia o contato. Passei a ser informante dos meus amigos e amigos do meu irmão. Regina era um belo exemplar do que diz hoje: modelo-manequim. Certa vez estava na sala de espera do apartamento dela, aguardando para ser atendido, quando chegou um homem mais largo do que comprido, seus pés eram tão grandes que seu físico compunha a forma semelhante de um ” L”. Olhou para mim, depois gritou: “Regina! vamos sair”. Ela disse: ”não posso, tenho que atender um cliente”. Ele respondeu: “deixa que deste eu dou conta”. Olhei para o meu interior e conheci o medo, sensação desagradável provocada por aquele cafetão, e, quando esticou a mão, a parte superior do L foi acrescida de um risco do tamanho do seu pé, parecia um ” C” quadrado, maiúsculo e atarracado. Abri a porta do apartamento, encurtei a distância entre o centro da cidade e a Moóca, fui me refugiar em casa (casa é tão importante que alguns animais carregam nas costas). Se fosse possível queria voltar para o útero da minha mãe. Nunca soube se esse “dar conta”, ele pagaria para ela o trabalho não realizado ou se iria me jogar do alto do apartamento. Dia seguinte mais calmo, fiquei pelado no banheiro, peguei o dinheiro, coloquei no chão, pisei em cima do dinheiro e transei com uma amiga que escolhi, sem ela saber. Depois desse sexo solitário, tomei banho, me vesti, coloquei o dinheiro no bolso e sai para a rua, aliviado e com dinheiro.
Enfim, o sexo é o grande motor das nossas atitudes. Toda energia do ser humano é libidinosa. Algumas realizações foram de sexo consumado e outras de sexo presumido. Um dia, quando nos tornarmos velhos, ele talvez se torne inconveniente, mas, em pleno exercício da energia, é fundamental; é bom demais. Agora, no final dos meus tempos, restam lembranças e boas recordações de um tempo bom, que não volta mais. Meninas. Valeu! Agradeço àquelas que deram, ofertaram, emprestaram, alugaram e me seduziram e se beneficiaram de mim. Mesmo as que me fizerem por um tempo, um pinto de plantão.
Mulher e viajar são as melhores coisas da vida.
O convívio com os amigos do Ginásio, mais do que do Colégio, foi tão marcante que até hoje nos reunimos uma vez por ano. Por ser uma escola freqüentada apenas por pessoas do sexo masculino, chamamos o encontro dos meninos do Colégio Nossa Senhora do Carmo, da Congregação dos Irmãos Maristas. Somos os formandos de 1960. Este ano, comemoramos o Jubileu de Ouro e grandes festividades estão programadas. Interessante, passado tanto tempo, nos transformamos conforme as histórias vividas, mas, ainda conservamos uma essência juvenil. Esses encontros, desprovidos do exercício da vaidade, tornaram-se bem melhores do que os encontros dos colegas da faculdade, normalmente carregados de sentimento de comparações inevitáveis e de inveja, conforme a situação de cada um.
Aos 17 anos fui com um amigo realizar na junta militar o alistamento obrigatório. Aos 18 anos, também com amigos, nos apresentamos no Exército Brasileiro. Por sermos estudantes secundaristas, nos apresentamos no Centro Preparatório de Oficiais da Reserva (CPOR). Escolhi para servir o meu tempo no exército, a gloriosa arma da Cavalaria (se não tiveres a rapidez do raio, o olhar da águia e a coragem do leão, para traz, pois, não és digno de pertencer ao furacão da cavalaria). Porque cavalaria se nunca tinha montado decentemente? O lema da cavalaria me seduziu: “Cavalaria, nem melhor e nem pior do que nenhuma outra arma, apenas diferente”. Esse lema me serviu e tem servido para todas as minhas considerações, realizações e sentenças. Não somos melhores e nem piores do que ninguém, apenas diferentes. Odeio ser comum, mediano; esforço-me, dedico-me, invisto para não sê-lo. Fiquei dois anos como aluno do CPOR, saí como Aspirante a Oficial de Cavalaria em Julho de 1964; ficamos de prontidão em função da revolução de 31 de março de 1964. Normalmente dois anos após a conclusão do Centro Preparatório, éramos chamados para um estágio de dois meses, o Regimento da Cavalaria era em Pirassununga, para recebermos a patente de segundo tenente. Por estar envolvido com o ingresso na faculdade e por não ser obrigatório, eu não realizei este estágio. Foi um tempo importante na minha vida, trago excelentes recordações e importantes aprendizados. Mantenho alguns amigos desta época, como o Jackson Fischer. Outros já faziam parte do grupo dos amigos da escola, como o Claudio da Silva e o Lino Campion. Juntos, escrevemos um capitulo importante na minha história. Azevedo e eu montamos nesta época, no nosso imaginário, um partido político, o PSM, Partido Socialista Militar. Nele as patentes não existiam mais e éramos todos camaradas. Estendeu-se de maneira significativa, surgiam os interessados em conhecer a organização e alguns queriam filiar-se. O difícil foi desfazermos o partido; principalmente pelas proporções que tomavam. Estivemos na Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN). Havia uma disputa interna no quartel, entre as diferentes armas, e quem conseguisse ganhar o troféu por três vezes consecutivas, tornava-se possuidor em definitivo da Taça Correia Lima Constava a competição de diferentes modalidades de esportes. A minha turma colaborou na conquista do bicampeonato final, uma vez que nosso tempo de permanência era de dois anos. Na vida só festeja a vitória, quem ganha; não admite perdedores ou só competidores. Era o capitão do time de futebol, a única atividade que não ganhamos, mas, participei de outras competições, como elemento para compor o grupo. Fomos tricampeões, ganhadores em definitivo do troféu. Como campeões festejamos.
“A adolescência é o período da vida em que os jovens se recusam acreditar que um dia virão a ser tão estúpidos como seus pais” – Alex Gabriel Madrigal.
Contudo procurei viver o que diz o provérbio chinês na possibilidade de compor a minha formação como pessoa: “o grande homem é aquele que não perdeu a candura da sua infância”. Chego ao final da minha medida de tempo, com lembranças significativas do início dos meus tempos.
Diz Orson Welles: “lutei para escapar da infância o mais cedo possível. E assim que consegui, voltei correndo para ela”.
A infância é considerada a idade quando se iniciam as interrogações, das coisas simples que os adultos comuns poderão responder. A adolescência é considerada a fase em que buscamos nos afirmar; entretanto, continuamos com indagações; só que agora mais complexas, de difíceis explicações. E, nos acompanharão até a velhice, o tempo considerado do melhor entendimento e de negação de algumas delas.
É a fase intermediária do desenvolvimento humano, marcada pela transição da infância para fase adulta. Tem como características principais as alterações: físicas, mentais e sociais. Nesta fase ocorre o processo de distanciamento do comportamento, da proteção e dos privilégios da infância, condições necessárias para o bom desenvolvimento de uma pessoa; e, concomitantemente, inicia-se o processo de aquisição das competências que nos capacite a assumirmos os deveres e papeis de adulto.
Lembro que na infância passei grande parte dela no colo da minha mãe, mesmo já grandinho. No final da adolescência, passei grande parte da minha juventude com algumas futuras mães sentadas no meu colo, mesmo ainda não adulto.
Adolescência é o mesmo que juventude?
Ás vezes são palavras usadas como sinônimos. Não significa a mesma coisa, o mesmo processo, o mesmo período. Existem literaturas que classificam a adolescência no período de 11 aos 21 anos. A ONU e a OMS, consideram que juventude é a fase compreendida entre os 15 e 24 anos de idade. Contudo, está aberta a classificação por idade, conforme considerações nos diferentes países com suas diferentes culturas. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a faixa etária para o adolescente entre 12 e 18 anos. Outras literaturas consideram que dos 18 aos 29 anos, é considerada “fase inicial do adulto”, sobrepondo-se à juventude. Conclui-se que a juventude (processo específico de amadurecimento) é um período da adolescência (processo maior com transformações constantes). A possibilidade dos seres humanos se organizarem para um entendimento comum, parece decididamente não ser possível neste mundo, pelo menos neste século. É importante sabermos que a adolescência é um termo utilizado sugerindo o processo de desenvolvimento bio-psico-social do ser humano. A adolescência não é marcada pelo final do desenvolvimento biológico e sim do sócio-cultural, por isso que a maior idade é considerada aos 18 anos, marcando o final desse desenvolvimento.
Puberdade é o mesmo que adolescência? A puberdade também não é a mesma coisa que adolescência, e, sim um período caracterizado por mudanças fisiológicas importantes. Como: o surgimento dos pelos pubianos, o crescimento dos testículos e desenvolvimento das mamas. Na puberdade o corpo do adolescente desenvolve-se física e mentalmente, tornando-se possível a possibilidade da gravidez. O período de puberdade, dentro da adolescência, varia entre os sexos, nas meninas ocorre dos 9 aos 13 anos, e, nos meninos entre 10 e 14 anos, conforme o clima da região; nos locais mais quentes o processo inicia-se mais cedo. A puberdade altera o estado emocional do adolescente e também o seu comportamento. É caracterizada: por mudanças físicas e psicológicas; por alterações hormonais despertando a sensibilidade sexual, já interferindo no desejo sexual; por isso é que nesta fase a maioria dos adolescentes, iniciam a prática sexual.
Portanto, na fase chamada de adolescência, ocorrem duas fases demarcando o início e final do processo: a puberdade e a juventude.
O dia-a-dia da infância nos deslumbrava, e, o mundo parecia ser uma eterna fantasia. Pouco contato com a realidade. Nossa imaginação valia mais do que o conhecimento. Assim saímos da infância para entrarmos na adolescência. Tudo na vida é um processo. Excluindo o acidente, as transformações ocorrem lenta e gradualmente. Não dormimos infantes e acordamos adolescentes. Como não dormimos jovens e acordamos idosos. Ao entramos na fase da adolescência, carregamos um brilho especial no olhar, como de quem vai viver os anos dourados da vida. Ansiosos, estendemos os braços para abraçar as pessoas e agarrar o mundo. A beleza, juventude e o entusiasmo andam próximos, são companheiros. Esta fase é a deliciosa desculpa para justificarmos nossos atos. Explicam os nossos ideais, nossas loucuras, nossa contagiante explosão de vitalidade. Ah! Carregamos sempre um sorriso especial, que maliciosamente guardamos para usarmos na hora conveniente. Este, seguramente, é um pouco da criança que os anos nunca levarão. Vivíamos em função da família, da escola e do que poderíamos fazer juntos com os amigos. A sede do clube da nossa vida eram os quartos de dormir, onde nos confidenciávamos e planejávamos nossas estratégias. Chegamos ao ginásio, depois no colégio e na universidade, carregando na mochila muitas dúvidas, incertezas, sonhos, a saudade de alguns amigos que se foram para outros lugares, e, a magia do coração, dividido entre a esperança e a razão.
Cristiane Galvão diz: ”fui muito feliz na minha infância e isso me garantiu uma adolescência bonita com uma juventude cheia de esperanças”.
“A infância continua. Os brinquedos é que vão mudar” – Carlos Tullio Schibuola.
As meninas registravam os acontecimentos das suas vidas nos diários. Registrei as minhas em contos, crônicas e poesias. As meninas já sonhavam com o príncipe encantado, começavam a formar o “complexo de cinderela”. Eu como os demais meninos pensávamos em descobrir os mistérios do sexo, e, do que eram formadas as meninas, seus peitos, sua boca e seu brinquedinho sexual de abrir e de fechar, que sacanagem, o nosso era de armar, e, armava com a maior facilidade. Que saudades!
Vivi na minha adolescência, uma grande paixão correspondida. Valéria foi estrela principal da minha peça de teatro na Broadway ou do meu filme no cinema de Hollywood. No final da minha juventude, vivi duas grandes paixões. Valéria e Cristina se revezavam na minha vida de emoções. Foram minhas grandes musas, fontes inspiradoras para construção das minhas poesias. Sou testemunha que é possível vivermos dois amores, com os mesmos interesses, ao mesmo tempo. O fundamental era saber lidar com eles e que direção seguir. Até chegar o dia em que precisaria sacrificar uma para a outra viver em plenitude. Era com a Valéria que iria viver a vida, prazerosamente. Cristina recusava-se morrer nos meus pensamentos. Depois aprendi a viver com o sentimento agradável que o pensar e escrever para ela, em mim produziu um dia. Valeria era tudo que eu queria ter. Cristina representava as coisas que não eram possíveis. Cristina sabia da existência da Valéria, mas, esta nunca soube da existência da outra. Já casados, fomos ao casamento da Cristina, e, a Valéria fez um único comentário: “vocês já se gostaram, pois, se olharam de forma diferente”. O olhar, como o gesto, são reveladores. Mais do que pensar, as mulheres “cismam” e raramente se enganam.
Deize havia se mudado da minha rua, sua presença ficou esquecida na confusão da memória do tempo. Teve representação importante na construção da minha identidade, foi o despertar pelo interesse pelo sexo oposto, me estimulou na formação da minha sexualidade. Com a Valeria deu-se a descoberta e realização dos principais fatos da minha vida. Quando adolescentes nos demos ás mãos, só a larguei no dia do seu sepultamento. Ela morreu como queria, não pela doença e tipo de morte, mas, de mãos dadas e eu contando histórias que eram sua grande descontração; após sete meses de luta contra um câncer de esôfago. De mãos dadas inventamos nossas vidas, construímos nossas possibilidades e registramos nossas realizações em forma de pessoas conscientemente realizadas, com a formação de uma “linda” família. Fomos muito felizes, o que me fez acreditar que era dado ao ser humano apenas à oportunidade de viver uma única história de amor na vida. Mesmo que muito difícil, em função da existência de histórias construídas e que influenciam significativamente nossos dias, posso acreditar ser possível vivermos mais de uma vez. Um foi testemunha da vida do outro. Nós sempre nos bastávamos. Com ela me realizei como pessoa, homem, pai, amigo, parceiro, amante, viajante. Nosso estilo de vida foi fonte de inspiração de um poeta, de cultura simples e bem formada, que nunca se permitiu agonizar. Formamos uma família organizada (até a sua morte) e emocionalmente estável, como vivi na infância. Segundo Goethe, a vida é a infância da imortalidade. Minha angústia, referente aos meus filhos, mesmo adolescentes, era produto da reflexão de Augusto Cury: “perder a mãe na infância é perder o solo onde caminhamos. É o último estágio de dor de uma criança”.
O universo tem alma feminina. Elas se esforçaram para me fazerem machista; não conseguiram (normalmente sempre conseguem o que querem). São elas que educam e transformam os homens. Nosso maior aprendizado foi com o sexo feminino (homens e mulheres aprendem a ser homens e mulheres com as mulheres).
Aprendi com elas a importância da atenção, do respeito, do carinho, do elogio na hora certa, de valorizar o feito do outro, em ser educado e gentil, e, da fofoca também (faz bem para a saúde). Foram esses os valores que vivi com minha mãe e irmã, com tias e primas, com as amigas da minha mãe e da minha irmã.
Percebi com clareza que vivia numa família de forma agradável e feliz; era ótimo o convívio dos nossos dias e projeções de outros. Acreditava que esta era a forma normal de viver em todas as famílias. Demorei a entender que não era assim em todas as casas. A principal lição que aprendi foi valorizar o outro em função do que ele representava para nós, não do quanto tinha e nem de quem era. Isto parece ser uma constante em todas as fazes da minha vida. Nada era comum na minha casa, apesar de termos as mesmas coisas que os outros tinham. Nós transformávamos um simples leite com chocolate e um pedaço de bolo em festa. Éramos alegres, recebíamos bem todas as pessoas. De vez em quando, geralmente de domingo na volta do Clube, meu pai aparecia com um imigrante ou migrante em casa para almoçar; pareciam velhos amigos pela facilidade com fluíam as conversas (sentar-se a mesa com alguém e partilhar uma refeição é o procedimento social mais próximo entre as pessoas). Após a saída do convidado, e, não raras vezes meu pai o acompanhava de automóvel até o local mais fácil para “pegar” o transporte público, éramos informados que aquela pessoa encontrava-se perdida, foi procurá-lo para uma informação e acabou sendo convidado a partilhar uma refeição à mesa conosco. Não foi essa pessoa a única que ganhou alguma coisa, neste caso o almoço e a informação; nós também havíamos ganho com a companhia das pessoas que sempre tinha um caso para contar, sobre a sua origem, do motivo de suas andanças e suas considerações sobre a vida, sempre interessantes e sofridas, fato que me estimulou a ser um colecionador de histórias e estudioso do comportamento humano.
Algumas coisas faziam o meu pai feliz: o almoço de domingo com a família; as reuniões com os irmãos, cunhados, sobrinhos, agregados. O vinho e o charuto, o faziam muito feliz. Estas eram para ele o máximo de prazer que a vida poderia oferecer.
A presença do pai tem grande significado segundo Freud: “não me lembro de nenhuma necessidade da infância tão grande quanto á necessidade da proteção de um pai”.
Herdei dele o interesse pelas assinaturas, do jornal “O Estado de São Paulo” e da revista “Seleções”. Os primeiros livros que tivemos para a leitura eram da coleção o ”Clube do Livro”, assinatura de meu irmão, cinco anos mais velho do que eu, e, vinte anos mais inteligente.
Em casa tínhamos uma cultura mediana. Todos, inclusive minha mãe, aprendíamos música, solfejo, piano, harmônica. Mas, o que mais nos alegrava eram os LPs da nossa coleção, tocadas no aparelho Hi-Fi, o mais moderno da época.
Minha casa era o local da rua onde tudo acontecia. Era a nossa sede, onde não só programávamos as atividades como também as realizávamos. Nasci e cresci, me desenvolvi, no meio de gente alegre, feliz, de bem com a vida.
Conseguimos ajuntar na adolescência, o essencial do que havíamos projetados na infância.
”A família é que nem varíola: a gente tem quando criança e fica marcado o resto da vida” – Jean Paul Sartre.
Os bailinhos aconteciam regularmente, era a forma que tínhamos para nos encontrarmos e celebrarmos os encontros. Os formandos do ginásio e colégio organizavam os bailes para arrecadar dinheiro, chamados de bailes de pré-formatura; o local era normalmente uma garagem, espaço que os pais cediam. Poderia ser no salão de festas de uma casa, ou na sala da casa que transformávamos em salão. Os LPs eram escolhidos, todos ofereciam os que eram considerados melhores para dançarmos, e, sempre alguém se oferecia para funcionar como D.J.,este dançava também. Bebíamos “Cuba Libre” e “Hi-Fi”. Dizíamos que o dinheiro arrecadado seria para ajudar nas despesas do grande e esperado Baile de Formatura, normalmente no Clube Pinheiros ou no Salão Nobre do Aeroporto. Os jovens vestidos com o tradicional smoking, as meninas de vestido longo, com luvas e deliciosamente bonitas.
Parceiros nos bailes eram as amigas ou a amiga das amigas. O mundo era uma província. Quem não fosse seu primo, era primo do seu primo. O comportamento exigia respeito, éramos vigiados. No meio do salão com outras pessoas dançando em volta, experimentaríamos o máximo de prazer (em função da cultura conservadora e medo das conseqüências do sexo), dançar de rosto colado; o que permitia um discreto roçar das coxas; mais audacioso era colar o rosto, o aroma era de Miss France e o cheiro do laquê para fixar o cabelo; sentir as coxas delas no meio das nossa coxas, era glorioso. Este motivo nos vestia de orgulho e tínhamos o prazer de contar para os amigos do grupo. Constrangedor era apenas o que fazer quando a música parava de tocar e tínhamos que desfazer o par, com o circo armado pela conseqüência da genitália se assanhar com este ato libidinoso, que despejava na cueca o troféu deste encontro delimitado. A conseqüência era pinto duro e a cueca melada. Era muito bom. Que saudades! Não da cueca melada, mas, do pinto duro. Assim é a vida, as melhores coisas acontecem em épocas não coincidentes com a possibilidade e o fato. Tínhamos forças suficientes para rompermos orifícios, o mastro suportava até uma toalha de banho molhada, mas, não tínhamos a facilidade para exercitá-lo na pratica do sexo. Hoje temos tudo, mas, infelizmente somos limitados pela dificuldade do mastro elevar-se e manter-se em pé. Ao meio pau é sinal de dificuldade para a ação. Não melamos mais a cueca; agora as deixamos impregnadas de urina, devido hiperplasia prostática. Nesta época, os bailes eram as deliciosas estratégias para dois corpos poderem ao máximo se aproximarem.
Diferente das inúmeras possibilidades e permissividade dos jovens hoje para a prática do sexo, a minha geração tinha que esperar muitos anos para fazer amor; o sexo fazia parte da relação mais importante entre duas pessoas, prevalecia o ato de amar. Tínhamos que esperar muito tempo e investir muito, emocionalmente e financeiramente, sexo só depois do casamento. Então havia apenas duas maneiras para a prática sexual. Uma, o sexo pago e realizado com profissionais; existiam os locais onde contratar os seus serviços. Outra forma era o sexo muito bem pago, envolvendo o casamento. Machado de Assis dizia que Deus na sua infinita bondade, para que o homem pudesse experimentar a felicidade, criou a fé e o amor. O diabo invejoso, para desfazer a possibilidade da felicidade, fez o homem confundir a fé com religião e amor com o casamento.
Acostumamos, com o sentimento e idéia, que o sexo é conseqüência de um precedido e alimentado desejo. Deve ser celebrado. É um evento. Hoje é apenas o atendimento a uma necessidade fisiológica ou social, criando-se entre as meninas o interesse em quantificar os parceiros para suas realizações, movidas por outros interesses além da vontade para atender uma necessidade.
Algumas literaturas e pessoas comuns anunciam que a atual geração, além de terem descoberto os mistérios do sexo, tornaram-no mais simples e permissivo. O que observo é que alguns questionamentos são traduzidos pelas mesmas dúvidas, e, o que existe de fato é uma liberdade acentuada e uma liberação nos interesses e valores.
É difícil falar de sexo, pois, junto com dinheiro e poder, são as coisas em que as pessoas mais mentem. Podemos falar do nosso entendimento e prática sexual, a dos outros depende da cabeça de cada um.
O combustível da vida dos adolescentes é a paixão; sempre estive apaixonado, nunca por artistas. Sempre por pessoas e coisas reais, capazes de corresponderem positivamente à minha paixão. Sempre pude escolher por quem queria estar apaixonado. Não carrego frustrações, só realizações. Mais ainda, tinha o controle do tempo em que deveriam durar essas paixões, elas me serviam de inspiração para os ensaios na formação de um poeta, que como os demais sempre fingi aparentar ser real o que realmente sente. Assim esculpi o meu ideal de perceber e declamar o que de melhor existia nas minhas musas: Deise ( apenas um despertar), Valéria (paixão que começou em vida, na adolescência, e, durou mais de 40 anos, mesmo após a sua morte), Cristina (que traduz as minhas necessidades construídas no meu imaginário). Agora o ensaio do último vôo de uma albatroz ferido.
Tive algumas paixões ocasionais, por poucos momentos, na realização de uma festa, no encontro de colegas ou em um evento, escolhia alguém para sentir um sentimento especial, a outra pessoa saber ou não era um simples detalhe em que nada iria alterar a minha disposição. A capacidade de nos apaixonarmos, de sentirmos amor por algo ou alguém, de querermos bem, é hormonal, é uma característica pessoal. A manutenção dos sentimentos, é que deve ser compartilhada e colaborativa, exigindo a participação do outro envolvido neste maravilhoso processo. Antes de conhecer a obra de Michel Odent, já vivia a “Cientificação do Amor”. Leonardo Felice Buscaglia foi o grande mestre na arte de amar. Conservo até hoje esta característica, entendo que para a maioria das pessoas não é possível escolher a quem se vai amar, simplesmente se aceita ou não.
Na minha rua moravam algumas mulheres interessantes. Mas, o que prevalece na escolha do homem, mais do que a beleza física é o jeito. Construímos um ideal de beleza e procuramos este modelo. Havia uma menina que preenchia todos os quesitos para despertar o meu interesse para uma relação de homem e mulher, sem enumerá-los e qualificá-los, fiz o pedido formal para a época e fui falar com a mãe dela. Tinha eu 17 anos, ela apenas 14; fui quase um pedófilo.
A paixão foi-se transformando em amor e este se fortalecendo com o tempo. A paixão é sentimento, dolorido e ansioso, produto de reações bio-psicológicas, com ação bioquímica. O amor é um sentimento que muda com tempo, em intensidade e forma, mas, se persistir, sempre será amor. Éramos amantes e amoráveis. Tivemos dois filhos, principal razão e sentido para a minha vida; cuidar deles e dos meus alunos é a vocação principal para manter-me vivo. Valéria e eu construímos a nossa família, influenciados pelos sonhos idealizados num período de dez anos, o tempo do nosso namoro. Sonhamos (sonhos possíveis de serem realizados) e realizamos nossos sonhos. Trabalhamos intensamente, ela professora na rede municipal de educação e a principal executiva em benefício da família. Vivermos bem era o nosso destino; dedicamo-nos muito para essa conquista. Atender as necessidades das pessoas que compunham a nossa família e a grande família, era o que nos movia e conferia o sentido que dávamos para as nossas vidas, procurando influenciar positivamente a vida dos outros.
Em conversa com os alunos, dizia que quando era jovem, tinha dois grandes desejos e que iria perseguir conscientemente a possibilidade de realizá-los. O primeiro desejo era poder encontrar uma mulher para amar (considero que na relação homem e mulher é o homem quem ama, a mulher é amada; e, será uma parceira maravilhosa, coisas que só as mulheres sabem fazer, se reconhecidamente valorizadas); alguém para chamar de querida, de fazê-la sentir todos os meus afetos, de ser a mãe dos meus filhos e que eu cuidaria com alegria, prazer e incessantemente. O segundo desejo era escolher uma profissão onde me sentisse útil (necessário para a sociedade), feliz para trabalhar bastante, e, ganhar dinheiro suficiente para manter a minha família e permitir a realização de algumas vontades e necessidades, inclusive experimentando prazeres que fortaleceriam a nossa união e a certeza de estarmos vivendo uma boa vida (passeios, bons restaurantes, cinema, teatro, shows, viagens, sítio, apartamento na praia, carro novo, reuniões com os parentes, boa educação para os filhos, boas roupas,etc.).
No dia do seu sepultamento, agradeci às pessoas pelas suas presenças, e, proferi palavras de agradecimento a Deus pela oportunidade que me proporcionou de ter conhecido, convivido e formado uma família com aquela com quem vivi uma história de amor. Devido sua morte e com os filhos ainda adolescentes, assumi a função de pai e mãe. Pude perceber a diferença de sentimentos que existe na função de cada um; até então tinha sido apenas o provedor, agora seria também o cuidador. Na vida, nada se compara ao amor de mãe, até isso minha esposa me possibilitou viver, o mais sublime de todos os amores. E mais prejudicial também, pois,não permite os filhos prepararem-se convenientemente para a vida (que implica em sofrimento); protegemos, prejudicialmente, os nossos filhos. Há 15 anos exerço uma dupla função.
O sucesso na nossa relação foi conseqüência da vontade e dedicação para que desse certo, somado à confiança. Carinho, atenção, respeito, tesão (no sentido amplo), surgiam naturalmente.
A adolescência (puberdade e juventude) é marcada pelas descobertas e pelas conseqüências das experiências. Este tempo foi marcado pela iniciação: do namoro, à leitura, à música e formação do gosto musical, ao reconhecimento da atração, a disposição para o sexo, a forma de sermos nas relações sociais para nos mantermos no grupo e sua importância, ao distanciamento do convívio familiar, etc.
Pertencia, por interesse em conhecer outras pessoas e interesses em experimentar outras formas de vida, a vários grupos. Algumas pessoas se iniciavam no caminho das drogas. Preferia trocar de grupo do que experimentar a droga para fazer parte do grupo; nunca tive curiosidade de saber sobre o sabor e efeitos. A minha alegria, a vontade de dar certo, de conhecer pessoas, coisas e o mundo, me sustentavam e bastavam.
O grupo era formado de pequenos grupos, estes eram organizados conforme o interesse e afinidades; havia pessoas com as quais jogava futebol, outras para ir ao baile, estudar, ir em casa para escutarmos música, ir ao cinema, ir paquerar, assistir televisão em casa. Sempre havia pessoas que poderiam circular por vários grupos, mas, poucas faziam parte de todos os grupos, só os amigos considerados inseparáveis. Havia o amigo predileto para irmos na “zona” e contratarmos o trabalho secular daquelas que chamávamos carinhosamente de “primas”. As prostitutas eram o nosso “desabafo”. Mais gostoso ainda era contar para o grupo como tinha sido a nossa aventura, sempre carregadas de exageros. Gostávamos que as pessoas fizessem uma imagem positiva de nós (nada mudou ainda hoje). A minha primeira experiência sexual foi aos 14 anos, com a “prima“ Mariazinha, no apartamento dela, perto do Largo do Paissandú, que não era mais largo do que o duto vaginal que fui conhecer. Alguém me forneceu o endereço e lá fui eu com um amigo. Ele quis ser o primeiro, eu iria na sopa dele (esta era a expressão de quem ia depois). Com ele houve uma falha técnica, o seu brinquedinho sexual não armou, não gozou. A maior preocupação dele não foi o dinheiro gasto e nem a abrochada, seria a gozação do grupo. Me fez prometer que eu nunca contaria para o grupo. Eu cumpri, não contei para o grupo, contei individualmente (perder a oportunidade causa maior frustração do que o prazer de ter prestigiado o amigo). Ainda bem, não teve sopa. Com ajuda incessante da “prima”, o meu brinquedinho se armou, introduzi no conduto que a vagina precede e depositei os fluidos da minha realização, com seu odor característico, o cheiro do sexo consumado. Como o pagamento foi adiantado, tornei-me a vestir (essa é a pior hora do sexo), fui embora satisfeito por ter cumprido a minha obrigação de homem, que se iniciava naquele homúnculo; mas, preocupado. Ou meu pênis era muito fino ou aquele canal tinha proporções de difícil mensuração. Fosse hoje, seria mais fácil, eu simplesmente dobraria o meu pênis em tantas vezes fosse preciso. Um dia perguntaram para o Vinicius de Moraes, se ele nascesse novamente, quem ele gostaria de ser? Respondeu ele: eu mesmo, só que o pinto um pouco maior. Eu responderia: eu mesmo só que com o pinto um pouco mais grosso para poder enfrentar a Mariazinha em melhores condições. Fiquei conformado ao ter o entendimento que lá era apenas um local para se despejar espermatozóides. Não senti o que mais queria; a resistência natural de uma penetração até a completa realização e a vontade de querer mais. Sexo que não deixa saudades é tão prazeroso e comum como urinar e evacuar. Voltei outras vezes à casa da Mariazinha, para apresentar aos outros iniciantes e realizar o meu descarrego; muito mais devido à vergonha que teria de passar no grupo, por não ter “ido” do que pela vontade. Interessante, adolescente não faz nada só. Até para se masturbar precisa da presença de uma mulher, contida na revista ou no imaginário. Progredi e tornei-me cliente da Regina, uma “prima” mais sofisticada. Parecia que meu pênis havia aumentado de volume, já sentia o contato. Passei a ser informante dos meus amigos e amigos do meu irmão. Regina era um belo exemplar do que diz hoje: modelo-manequim. Certa vez estava na sala de espera do apartamento dela, aguardando para ser atendido, quando chegou um homem mais largo do que comprido, seus pés eram tão grandes que seu físico compunha a forma semelhante de um ” L”. Olhou para mim, depois gritou: “Regina! vamos sair”. Ela disse: ”não posso, tenho que atender um cliente”. Ele respondeu: “deixa que deste eu dou conta”. Olhei para o meu interior e conheci o medo, sensação desagradável provocada por aquele cafetão, e, quando esticou a mão, a parte superior do L foi acrescida de um risco do tamanho do seu pé, parecia um ” C” quadrado, maiúsculo e atarracado. Abri a porta do apartamento, encurtei a distância entre o centro da cidade e a Moóca, fui me refugiar em casa (casa é tão importante que alguns animais carregam nas costas). Se fosse possível queria voltar para o útero da minha mãe. Nunca soube se esse “dar conta”, ele pagaria para ela o trabalho não realizado ou se iria me jogar do alto do apartamento. Dia seguinte mais calmo, fiquei pelado no banheiro, peguei o dinheiro, coloquei no chão, pisei em cima do dinheiro e transei com uma amiga que escolhi, sem ela saber. Depois desse sexo solitário, tomei banho, me vesti, coloquei o dinheiro no bolso e sai para a rua, aliviado e com dinheiro.
Enfim, o sexo é o grande motor das nossas atitudes. Toda energia do ser humano é libidinosa. Algumas realizações foram de sexo consumado e outras de sexo presumido. Um dia, quando nos tornarmos velhos, ele talvez se torne inconveniente, mas, em pleno exercício da energia, é fundamental; é bom demais. Agora, no final dos meus tempos, restam lembranças e boas recordações de um tempo bom, que não volta mais. Meninas. Valeu! Agradeço àquelas que deram, ofertaram, emprestaram, alugaram e me seduziram e se beneficiaram de mim. Mesmo as que me fizerem por um tempo, um pinto de plantão.
Mulher e viajar são as melhores coisas da vida.
O convívio com os amigos do Ginásio, mais do que do Colégio, foi tão marcante que até hoje nos reunimos uma vez por ano. Por ser uma escola freqüentada apenas por pessoas do sexo masculino, chamamos o encontro dos meninos do Colégio Nossa Senhora do Carmo, da Congregação dos Irmãos Maristas. Somos os formandos de 1960. Este ano, comemoramos o Jubileu de Ouro e grandes festividades estão programadas. Interessante, passado tanto tempo, nos transformamos conforme as histórias vividas, mas, ainda conservamos uma essência juvenil. Esses encontros, desprovidos do exercício da vaidade, tornaram-se bem melhores do que os encontros dos colegas da faculdade, normalmente carregados de sentimento de comparações inevitáveis e de inveja, conforme a situação de cada um.
Aos 17 anos fui com um amigo realizar na junta militar o alistamento obrigatório. Aos 18 anos, também com amigos, nos apresentamos no Exército Brasileiro. Por sermos estudantes secundaristas, nos apresentamos no Centro Preparatório de Oficiais da Reserva (CPOR). Escolhi para servir o meu tempo no exército, a gloriosa arma da Cavalaria (se não tiveres a rapidez do raio, o olhar da águia e a coragem do leão, para traz, pois, não és digno de pertencer ao furacão da cavalaria). Porque cavalaria se nunca tinha montado decentemente? O lema da cavalaria me seduziu: “Cavalaria, nem melhor e nem pior do que nenhuma outra arma, apenas diferente”. Esse lema me serviu e tem servido para todas as minhas considerações, realizações e sentenças. Não somos melhores e nem piores do que ninguém, apenas diferentes. Odeio ser comum, mediano; esforço-me, dedico-me, invisto para não sê-lo. Fiquei dois anos como aluno do CPOR, saí como Aspirante a Oficial de Cavalaria em Julho de 1964; ficamos de prontidão em função da revolução de 31 de março de 1964. Normalmente dois anos após a conclusão do Centro Preparatório, éramos chamados para um estágio de dois meses, o Regimento da Cavalaria era em Pirassununga, para recebermos a patente de segundo tenente. Por estar envolvido com o ingresso na faculdade e por não ser obrigatório, eu não realizei este estágio. Foi um tempo importante na minha vida, trago excelentes recordações e importantes aprendizados. Mantenho alguns amigos desta época, como o Jackson Fischer. Outros já faziam parte do grupo dos amigos da escola, como o Claudio da Silva e o Lino Campion. Juntos, escrevemos um capitulo importante na minha história. Azevedo e eu montamos nesta época, no nosso imaginário, um partido político, o PSM, Partido Socialista Militar. Nele as patentes não existiam mais e éramos todos camaradas. Estendeu-se de maneira significativa, surgiam os interessados em conhecer a organização e alguns queriam filiar-se. O difícil foi desfazermos o partido; principalmente pelas proporções que tomavam. Estivemos na Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN). Havia uma disputa interna no quartel, entre as diferentes armas, e quem conseguisse ganhar o troféu por três vezes consecutivas, tornava-se possuidor em definitivo da Taça Correia Lima Constava a competição de diferentes modalidades de esportes. A minha turma colaborou na conquista do bicampeonato final, uma vez que nosso tempo de permanência era de dois anos. Na vida só festeja a vitória, quem ganha; não admite perdedores ou só competidores. Era o capitão do time de futebol, a única atividade que não ganhamos, mas, participei de outras competições, como elemento para compor o grupo. Fomos tricampeões, ganhadores em definitivo do troféu. Como campeões festejamos.
“A adolescência é o período da vida em que os jovens se recusam acreditar que um dia virão a ser tão estúpidos como seus pais” – Alex Gabriel Madrigal.
Contudo procurei viver o que diz o provérbio chinês na possibilidade de compor a minha formação como pessoa: “o grande homem é aquele que não perdeu a candura da sua infância”. Chego ao final da minha medida de tempo, com lembranças significativas do início dos meus tempos.
Diz Orson Welles: “lutei para escapar da infância o mais cedo possível. E assim que consegui, voltei correndo para ela”.
A infância é considerada a idade quando se iniciam as interrogações, das coisas simples que os adultos comuns poderão responder. A adolescência é considerada a fase em que buscamos nos afirmar; entretanto, continuamos com indagações; só que agora mais complexas, de difíceis explicações. E, nos acompanharão até a velhice, o tempo considerado do melhor entendimento e de negação de algumas delas.
Fase da vida : Infância
Infância
Algumas literaturas específicas consideram a infância como um período que vai desde o nascimento até aproximadamente o décimo primeiro ano de vida de uma pessoa. É um período em que acontece a fase de ser criança (que não é um adulto em miniatura); é o início do desenvolvimento. Este período é caracterizado pelo grande desenvolvimento do ser humano, em todos os sentidos, bio-psico-sócio-existênciais. É esta, a fase em que ocorrem o maior aprendizado e preparação para o enfrentamento dos transtornos da vida, mesmo os naturais. Nos sete primeiros anos de vida de uma pessoa, acontecerão as principais descobertas e envolvimentos graduais para a aquisição das bases de sua personalidade. Sugerindo mudanças de comportamento. É o tempo de maior importância na construção de uma pessoa.
Esse período para as pessoas da minha geração foi um tempo marcado pela influência da família, da escola e da rua.
Como tudo começou? Um dia no ventre de uma mulher, pulsou um novo ser, novo enigma: cada um de nós. Quente e protegidos nos alimentávamos dos nutrientes carregados no seu sangue. E, alimentávamos os sonhos desta mulher maravilhosa que permitiu que nos formássemos e nos desenvolvêssemos no seu ventre, nossa mãe. Nove meses passariam até que um dia, rompendo a escuridão protetora do ninho materno, um grito mais forte -de liberdade e libertação- ecoou no espaço e nascemos nós, trazendo conosco o medo, os transtornos ocasionados pela auto-estima e a ansiedade. Depois, vivemos cada momento como se a vida fosse apenas encantamento e alegria. Os primeiros aprendizados para atender as nossas necessidades biológicas fundamentais, o brinquedo e a brincadeira, o passeio, a festa, o castigo, a escola, os amiguinhos, enfim, as descobertas; é o tempo de descobrir-se no mundo. O dia-a-dia nos deslumbrava, o mundo parecia uma fantasia que seria eterna. A imaginação tem mais emoção do que o conhecimento.
Como todo ser vivo, é de fundamental importância no processo de nos fortalecermos e nos prepararmos convenientemente para a vida, a presença dos pais, nos ofertando afeto e garantindo nossa segurança. Esta é uma condição importante e necessária para um bom desenvolvimento e satisfações, na construção da identidade de uma pessoa. Estimularam-nos á falar, andar, atender convenientemente nossas necessidade fisiológicas e afetivas, brincar e formar o nosso primeiro grupo social. Como filho é objeto de desejo dos pais, escolheram nossos nomes, o local para nos ambientarmos, o tipo e composição de família para convivermos, a escola, o clube, o time de futebol, a religião para nos aculturarmos e a igreja onde congregarmos. Escolheram as pessoas que seriam nossos segundos pais e responsáveis por nossa criação, caso ocorresse á impossibilidade deles concluírem nossa formação, a quem passamos a chamar de padrinhos.
Juntos com tios, primos, agregados, compúnhamos uma grande família, marcada por reuniões e eventos para comemorarmos nem sempre sabíamos bem o que. Nossa “manada” era composta de gente importante, nos emocionávamos á cada encontro, se possível dávamos umas “pegadas” nas primas, e, quanto mais prima melhor, assim descobríamos sobre as diferenças de conduta em pessoas de sexo diferente, fatos que contribuíram para nossas opções sexuais.
Completavam a lista dos personagens, no teatro prolixo da nossa existência influenciada pelos desejos, os amigos de dois novos grupos sociais, a escola e a rua. Na maioria das vezes alguns dos personagens faziam parte dos dois grupos, esses semelhantes ao da família, marcarão as nossas vidas para sempre.
Minha rua, de um bairro industrial (característica de São Paulo na época; a economia dependia da atividade desse segmento, por opção política e econômica), com gente de cultura suburbana. A vida positivamente acontecia, era bárbaro! Éramos o centro do universo.
Meus amigos eram pessoas comuns de nomes estranhos, que só mais tarde comecei a me dar conta do significado das palavras e a relação com suas pessoas, que na época eram simples personagens. Era, bereba, guspida (e não cuspida), bandóla (como o pai), pizza, macarrão, bidô ou durú, bêbé, xará (não importa qual fosse o nome), o gordinho e a gordinha, a estilingue, a beréca, a nenê, a dona boneca, sem contar o diminutivo ou aumentativo do próprio nome (independente do tamanho e idade). Havia um que até agora não sei o motivo da origem: “cu de cenoura”, não há registro de quem cheirou ou provou desse orifício.
Havia duas possibilidades de freqüentarmos a escola, a pública chamada de Grupo Escolar, de excelente qualidade, freqüentado pela grande maioria das crianças, e a particular, normalmente escolas constituídas por composição familiar. Estudei no Externato Mattoso (nossa vinheta que nada correspondia com a realidade era: “externato mata gato, entra burro e sai macaco”), de propriedade das irmãs Mattoso onde exerciam a nobre e mais importante função na época, a de ser professor. Este mestre personagem seria uma pessoa que marcaria positivamente as nossas vidas. Os professores eram considerados pessoas que colaborariam comprometidos com nossa formação; era uma personagem modelo. Nas duas escolas, pública e particular, o ambiente era chamado de “familiar” que significava poder desfrutar de um ambiente saudável que permitia melhor aprendizado; a escola era um centro feliz de convivência. Gostávamos da nossa escola, respeitávamos nossas professoras e nos dávamos bem com os amigos, mesmo com aqueles com quem brigávamos com ou sem motivos; o ser humano é impregnado de sentimentos bélicos.
A minha rua tinha um prefeito, Seu Aquiles ou Achilles, era difícil sabermos o nome real das pessoas e a maioria delas muito tarde ficaríamos sabendo sobre o seu nome e grafia. Minha mãe chamava-se Aurélia, quando foi tirar os documentos para a realização do seu casamento, ficou sabendo que seu nome era Valéria; era comum encontrarmos várias pessoas da mesma família com o sobrenome diferentes, por ignorância do escrevente do cartório de registro e, das pessoas que iam realizar o registro, além de expressar-se mal no próprio idioma, não falavam claramente o português.Não era possível levar o nome escrito, um não sabia escrever e o outro era analfabeto funcional, como o é ainda a maioria dos brasileiros. Sorte a minha, tive uma única mãe com dois nomes, fui filho da dona Aurélia e da dona Valéria, a única dificuldade é que eu nunca sabia como deveria me apresentar. Coisas de uma época, onde o documento raramente era solicitado; pagar para reconhecer a própria assinatura, não existia esta possibilidade; a palavra era suficiente. Mais importante do que o nome ou o apelido, era o que cada um representava na família, na escola e na rua; nossos locais de aprendizado. Personagens significativos e sempre presentes na comunidade eram o Padre e o Médico. O Padre buscava nos ensinar as coisas que achava que deveríamos aprender antes que se realizasse na rua; hoje percebo como nos fizeram acreditar em verdades transitórias (por ignorância; equívocos e necessidade de manterem um sistema; não acredito na má fé). A figura no médico representava o arauto da cura das doenças, não existia a promoção da saúde. O nosso prefeito era conhecido como “Zé bundinha”, quando na realidade deveria ser “bundão”, visto o tamanho, e, o conceito que dele fazíamos. Foi determinado prefeito pelos eleitores e donos da minha rua, o meu grupo (impressionante a necessidade que temos, até hoje, de pertencermos á alguma coisa, por afinidade e necessidade vamos buscar o nosso grupo religioso ou social). Certamente por acharmos que ele quisesse fazer prevalecer com autoridade as suas considerações e avaliação que fazia sobre o comportamento do grupo, verdade que nem sempre conveniente, mas, muito mais por sua intolerância; já o fazia com a arrogância característica dos políticos, hoje de condutas imorais e indecentes, além de ilegais, porém são eles que julgam seus próprios atos, ou as pessoas que eles indicam. Nesse tempo, no dia de malharmos o Judas, seriam eles, a melhor e justa inspiração nesta prazerosa ação; ninguém melhor do que os políticos para serem representantes do Judas (dele não conhecemos o rosto, dos corruptos sim, aparecem na imprensa diuturnamente, podemos ter dificuldade de identificá-los face o número cada vez maior de escândalos).
Nosso principado, além de princesas tinha uma rainha, a dona Beatriz, uma portuguesa, com bigode característico e conservador de sua origem, uma senhora mais idosa que nossas mães, eleita por unanimidade, a avó de todos, devido sua bondade. Um dia quebrei a vidraça da janela da casa dela, fui de pronto me apresentar e pedir desculpas, ela simplesmente me abraçou e me beijou dizendo: não faz mal meu filho, mais importante foi o seu pedido de desculpas. Foi escolha imediata, tornou-se a avó que nunca tive; impressionante como a sociedade pode substituir a função das pessoas e coisas que nos faltam; basta estarmos disponíveis para que as coisas aconteçam. Nós estávamos disponíveis, por isso as coisas aconteciam. Aprendi a lição, nunca mais quebrei a vidraça da sua casa, só a das outras vizinhas, na esperança de ganhar mais abraços e beijos no meu pedido de desculpas. Com meus amigos, formamos uma geração que buscava e trocava afeto.
Nosso tempo foi marcado pela influência do rádio, sistema de comunicação com a aparência de ações sinceras, era fácil a medição, pois, era ao vivo; diferente das manipulações da televisão em busca de audiência, onde os fins justificam os meios. O rádio era nosso companheiro constante e fiel, de presença significativa e responsável na formação da nossa identidade, enlevado por uma cultura que nos emocionava. Ouvíamos o que os nossos pais escolhiam: programa de calouros, música, entrevistas, programa de variedades, propagandas que hoje circulam saudosamente na internet e caracterizaram a nossa geração, e, seguíamos como sempre, as novelas. As pessoas que trabalhavam no rádio compunham uma paisagem agradável, desejável e familiar; entravam em casa quando queríamos e eram recebidos como membro da família.
Para as ocasiões especiais tínhamos o conjunto Rádio-Vitrola, o rádio era substituído pela vitrola, o toca-discos de 78 rotações/minuto. O disco tinha lado “A” e lado “B”. Um dia ganhei do meu pai dois discos; um era sobre história infantil, a “formiguinha” e outro sobre a história que marcaria a minha vida pela adolescência afora, uma canção de amor; iniciava-se o processo de gostar de alguém. O meu sexo estava determinado pelo tipo de genitália; a minha sexualidade, o interesse por pessoa de sexo diferente, o interesse em viver um dia uma história de amor, interesse que nunca me abandonou, iniciou-se com as músicas desse disco; cuja letra dizia: “quando eu era criança, brincava de pique será; ainda me vem na lembrança o meu pé de jacarandá. Ora pega ioiô, ora pega Iaiá, a vida era alegra no pique será. O pique daqui e o pique de lá; será o pegar, será pegar. Uma menina tão linda, que se chamava Zilá, parece que a vejo ainda brincando de pique será. E o pique ....”
Sonhei de olhos abertos e nele revelou-se que a minha Zilá, chamava-se Deise, amiga da minha irmã; a primeira mulher que me possibilitou sentir que éramos pessoas diferentes. Nossas escolhas são diferentes e determinam a forma de pensarmos e sentirmos as coisas; motivos que nos tornam pessoas únicas. Agradava-me começar revelar-me uma pessoa em transformação, e, principalmente saber que éramos homem e mulher. São simplesmente fantásticas as descobertas. A atração revelou-se uma sensação de difícil entendimento e explicação. Posteriormente a esta descoberta e nova sensação, aprendi que nem sempre é possível fazer escolhas por quem queremos ou deveremos estar atraídos; a atração simplesmente se revela e, nos compete apenas aceitamos ou não. Recentemente, encontrei a minha Zilá, favorecido pela tecnologia atual que possibilitam encontros, mesmo que virtuais, podem ser carregados de reais emoções. Informou que só na sua adolescência descobriu que seu nome não era com “s” e sim com “z”. Mais uma vez, ser Deise ou Deize, não era o mais importante. O valor de uma pessoa só pode ser traduzido pelo o que ela nos representa. Mais uma vez, sorte a minha, conheci uma Deise e encontrei a mesma Deize. Neste encontro tive oportunidade de dizer a ela que tenho muitas saudades dos beijos que trocamos atrás do jacarandá; que nunca foram dados. Podemos considerar que o desejo é uma necessidade característica dos seres vivos, particularmente os humanos. O desejo busca mostrar o que necessitamos para a realização da satisfação, do prazer. Minhas primeiras relações sexuais foram com algumas das amigas da minha irmã. Só agora começo a contar para elas; nunca souberam e isto hoje é apenas um detalhe. As homenageava durante o banho ou no quarto de dormir, solitária e solenemente. Agradeço a elas por tanto gozo produzido.
Leio com um olhar e entendimento diferente, carregados de emoções, o mesmo livro que um dia na década de 50, do Clube do Livro, eu li e me impressiona até hoje, “Os meninos da Rua Paulo”, do escritor Húngaro, Ferenc Molnár. O cenário do livro é uma rua, de um bairro afastado na cidade de Budapeste. O local da minha infância é a Rua Marcial do bairro da Moóca, o portal da Zona Leste, próximo ao Centro da Cidade de São Paulo.
No local onde morou a minha infância, junto com as pessoas que compunham o capítulo mais importante da minha história, nos sentíamos importantes, tínhamos um mundo próprio; só nosso. Tínhamos que ocupar um espaço, delimitado, e, como todo ser vivo, teríamos que defender o nosso território. Nele construímos nossos castelos, nos apropriamos gradativamente dos seus arredores para descobrirmos novos horizontes. Junto com reis e rainhas, estabelecemos como todos os animais no seu habitat, uma hierarquia, influenciado pela condição física e emocional dos elementos que compunham a nossa “matilha”, o nosso grupo social. Essa era a composição das pessoas e dos elementos que determinariam a forma de viver este período, o mais importante na vida de uma pessoa na construção da sua identidade, edificando momentos que servirão para determinar nossas futuras ações.
Mais do que um simples quadrilátero demarcado por ruas, praças, avenidas, conjuntos habitacionais, fábricas, parques, centro esportivos ou igrejas cuja presença era marcada pela badalada dos sinos; o bairro era identificado pela qualidade de vida que poderíamos praticar. O cenário que compunha o nosso território era o nosso universo, para nós a vida só acontecia aqui. Tudo mais era simples coadjuvante. Neste universo nos aventurávamos a experimentarmos o prazer da liberdade, sem compromissos e contas para pagar. Hoje recordamos com saudades, um tempo bom, que os anos e a modernidade se encarregaram de levar.
A minha gente, que morava em bairro de indústrias e industriários, era alegre, festeira, amiga, de valor. Nossa cultura suburbana não nos permitia termos precocidade excessiva; nosso ambiente, era a realidade; sem artificialismo e sofisticação. Éramos marcados por dois sentimentos importantes na construção e manutenção de uma amizade: sinceridade e confiança. A aproximação entre as pessoas era característica expressiva. As portas das casas eram abertas, não só para a saída das pessoas, mas, para principalmente para permitir a entrada de quem quisesse, e, a senha era uma simples saudação de encontro. Nossas tardes tinham cheiro de pão assando, de café com bolo; o bom é que sempre acabávamos comendo desse cheiro. O vizinho era o membro mais próximo na composição da família; presença obrigatória nas reuniões, independente do motivo; mais do que reunidos, estávamos unidos. Tudo era motivo de festa e os penetras eram tão bem-vindos quanto os convidados.
A existência de um único aparelho de televisão, que iniciava suas atividades, era suficiente para que todos assistissem, era o televizinho.
Geração genuína desprovida da maldade consciente; existiam naturalmente as maldades humanas. Revelava-se um entendimento ingênuo, suas ações eram espontâneas.
Modernidade era o telefone na padaria (pagava-se a ligação), e, a caderneta para anotar a operação chamada: “comprar fiado” (na quitanda e na padaria)
As minhas ruas eram sonolentas, com raríssimos carros passando, e estes, com motoristas cuidadosos, pois, tinham consciência que estavam invadindo um espaço criado pelo homem, que servia de lugar para realizarmos nossas brincadeiras.
Sociedade matriarcal, as mães, avós, tias, amigas da mãe, eram as portadoras do conhecimento e partilhavam com contos os mistérios da vida. Impossível pensar um universo sem as mulheres.
O bairro era um grande teatro, a rua o palco, os moradores eram os verdadeiros artistas, o cenário era o da época: campeonato mundial, festa junina, páscoa, natal, aniversários, procissões em festas religiosas, desfile das escolas e sua fanfarras, carnaval, etc. Cada um tecendo a idéia que esta possibilidade de momentos de real descontração e felicidade pudesse ser levada para os anos seguintes.
Esse foi um período possível de termos a oportunidade de sermos realmente autênticos. Fomos o que quisermos ser: artilheiro de futebol, exímio esportista, príncipe encantado, mocinho, bandido, herói. Hoje, as pessoas desse tempo carregam a sensação de viverem no exílio.
Diferente dos heróis do Cazuza que morreram de over-dose, nossos heróis morriam bravamente na defesa de um ideal ou de morte natural.
Dos que viveram nestes mágicos ambientes, alguns lembram saudosamente e outros presenciaram, melancolicamente, a transformação do seu bairro, física e socialmente.
Experiências como as vividas pelos meninos da Rua Paulo (há mais de cem anos), e, os meninos da minha ou qualquer rua, perceberam que o mundo é um só; teimosamente procura-se fragmentá-lo.
Mais do que defendermos o nosso bairro por saudosismo, queremos de fato preservar a imagem ideal da nossa alegre juventude.
Nossa casa era pequena e humilde, o que tínhamos de melhor era o nosso quintal, cujo tamanho era tanto maior quanto mais nos aventurássemos, a rua.
Hoje resta a lembrança de um tempo bom e a presença de arranha-céus, as ruas foram invadidas por caminhões e motos, até de automóveis, sem nenhum respeito pelas pessoas. O vizinho deixou de ser amigo e tornou-se num suspeito. O cenário onde as crianças exercitam o a formação de sua identidade são delimitados por paredes, com teto que os impede de perceberem que o céu é azul; como nós, as crianças também andam descalças, antes com pé no chão, agora no carpete. O personagem principal na vida das crianças de hoje surgem na tela do computador; a socialização não é feita mais com pessoas e seus sentimentos, são com imagens virtuais. Estão destinadas a vencer a qualquer preço, pois, só isso interessa: vencer.
Estas são as realidades atuais, quais serão as próximas?
A natureza, sábia como sempre, se encarregará que seja construído um tipo de ser humano adaptado ao novo estilo de vida e a sociedade, sem perceber, está possibilitando a formação de uma identidade para a pessoa do futuro que saberá realizar as suas escolhas.
Não tenho certeza se a minha infância foi melhor do que a dos meus filhos; e, que será obrigatoriamente melhor do que a dos meus netos. A única certeza que tenho é que foram e serão diferentes.
Considero as palavras de: Carlos Drummond de Andrade - “há duas épocas na vida, a infância e a velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”. Victor Hugo – “não ter nada para fazer é a alegria das crianças e a infelicidade dos anciãos”. Epicuro – “as pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo”.
Concluo: Aprendemos arrumar os cabelos todos os dias; segundo nossas mães, porque era necessário. Porque não nos ensinaram a arrumar o coração?
Algumas literaturas específicas consideram a infância como um período que vai desde o nascimento até aproximadamente o décimo primeiro ano de vida de uma pessoa. É um período em que acontece a fase de ser criança (que não é um adulto em miniatura); é o início do desenvolvimento. Este período é caracterizado pelo grande desenvolvimento do ser humano, em todos os sentidos, bio-psico-sócio-existênciais. É esta, a fase em que ocorrem o maior aprendizado e preparação para o enfrentamento dos transtornos da vida, mesmo os naturais. Nos sete primeiros anos de vida de uma pessoa, acontecerão as principais descobertas e envolvimentos graduais para a aquisição das bases de sua personalidade. Sugerindo mudanças de comportamento. É o tempo de maior importância na construção de uma pessoa.
Esse período para as pessoas da minha geração foi um tempo marcado pela influência da família, da escola e da rua.
Como tudo começou? Um dia no ventre de uma mulher, pulsou um novo ser, novo enigma: cada um de nós. Quente e protegidos nos alimentávamos dos nutrientes carregados no seu sangue. E, alimentávamos os sonhos desta mulher maravilhosa que permitiu que nos formássemos e nos desenvolvêssemos no seu ventre, nossa mãe. Nove meses passariam até que um dia, rompendo a escuridão protetora do ninho materno, um grito mais forte -de liberdade e libertação- ecoou no espaço e nascemos nós, trazendo conosco o medo, os transtornos ocasionados pela auto-estima e a ansiedade. Depois, vivemos cada momento como se a vida fosse apenas encantamento e alegria. Os primeiros aprendizados para atender as nossas necessidades biológicas fundamentais, o brinquedo e a brincadeira, o passeio, a festa, o castigo, a escola, os amiguinhos, enfim, as descobertas; é o tempo de descobrir-se no mundo. O dia-a-dia nos deslumbrava, o mundo parecia uma fantasia que seria eterna. A imaginação tem mais emoção do que o conhecimento.
Como todo ser vivo, é de fundamental importância no processo de nos fortalecermos e nos prepararmos convenientemente para a vida, a presença dos pais, nos ofertando afeto e garantindo nossa segurança. Esta é uma condição importante e necessária para um bom desenvolvimento e satisfações, na construção da identidade de uma pessoa. Estimularam-nos á falar, andar, atender convenientemente nossas necessidade fisiológicas e afetivas, brincar e formar o nosso primeiro grupo social. Como filho é objeto de desejo dos pais, escolheram nossos nomes, o local para nos ambientarmos, o tipo e composição de família para convivermos, a escola, o clube, o time de futebol, a religião para nos aculturarmos e a igreja onde congregarmos. Escolheram as pessoas que seriam nossos segundos pais e responsáveis por nossa criação, caso ocorresse á impossibilidade deles concluírem nossa formação, a quem passamos a chamar de padrinhos.
Juntos com tios, primos, agregados, compúnhamos uma grande família, marcada por reuniões e eventos para comemorarmos nem sempre sabíamos bem o que. Nossa “manada” era composta de gente importante, nos emocionávamos á cada encontro, se possível dávamos umas “pegadas” nas primas, e, quanto mais prima melhor, assim descobríamos sobre as diferenças de conduta em pessoas de sexo diferente, fatos que contribuíram para nossas opções sexuais.
Completavam a lista dos personagens, no teatro prolixo da nossa existência influenciada pelos desejos, os amigos de dois novos grupos sociais, a escola e a rua. Na maioria das vezes alguns dos personagens faziam parte dos dois grupos, esses semelhantes ao da família, marcarão as nossas vidas para sempre.
Minha rua, de um bairro industrial (característica de São Paulo na época; a economia dependia da atividade desse segmento, por opção política e econômica), com gente de cultura suburbana. A vida positivamente acontecia, era bárbaro! Éramos o centro do universo.
Meus amigos eram pessoas comuns de nomes estranhos, que só mais tarde comecei a me dar conta do significado das palavras e a relação com suas pessoas, que na época eram simples personagens. Era, bereba, guspida (e não cuspida), bandóla (como o pai), pizza, macarrão, bidô ou durú, bêbé, xará (não importa qual fosse o nome), o gordinho e a gordinha, a estilingue, a beréca, a nenê, a dona boneca, sem contar o diminutivo ou aumentativo do próprio nome (independente do tamanho e idade). Havia um que até agora não sei o motivo da origem: “cu de cenoura”, não há registro de quem cheirou ou provou desse orifício.
Havia duas possibilidades de freqüentarmos a escola, a pública chamada de Grupo Escolar, de excelente qualidade, freqüentado pela grande maioria das crianças, e a particular, normalmente escolas constituídas por composição familiar. Estudei no Externato Mattoso (nossa vinheta que nada correspondia com a realidade era: “externato mata gato, entra burro e sai macaco”), de propriedade das irmãs Mattoso onde exerciam a nobre e mais importante função na época, a de ser professor. Este mestre personagem seria uma pessoa que marcaria positivamente as nossas vidas. Os professores eram considerados pessoas que colaborariam comprometidos com nossa formação; era uma personagem modelo. Nas duas escolas, pública e particular, o ambiente era chamado de “familiar” que significava poder desfrutar de um ambiente saudável que permitia melhor aprendizado; a escola era um centro feliz de convivência. Gostávamos da nossa escola, respeitávamos nossas professoras e nos dávamos bem com os amigos, mesmo com aqueles com quem brigávamos com ou sem motivos; o ser humano é impregnado de sentimentos bélicos.
A minha rua tinha um prefeito, Seu Aquiles ou Achilles, era difícil sabermos o nome real das pessoas e a maioria delas muito tarde ficaríamos sabendo sobre o seu nome e grafia. Minha mãe chamava-se Aurélia, quando foi tirar os documentos para a realização do seu casamento, ficou sabendo que seu nome era Valéria; era comum encontrarmos várias pessoas da mesma família com o sobrenome diferentes, por ignorância do escrevente do cartório de registro e, das pessoas que iam realizar o registro, além de expressar-se mal no próprio idioma, não falavam claramente o português.Não era possível levar o nome escrito, um não sabia escrever e o outro era analfabeto funcional, como o é ainda a maioria dos brasileiros. Sorte a minha, tive uma única mãe com dois nomes, fui filho da dona Aurélia e da dona Valéria, a única dificuldade é que eu nunca sabia como deveria me apresentar. Coisas de uma época, onde o documento raramente era solicitado; pagar para reconhecer a própria assinatura, não existia esta possibilidade; a palavra era suficiente. Mais importante do que o nome ou o apelido, era o que cada um representava na família, na escola e na rua; nossos locais de aprendizado. Personagens significativos e sempre presentes na comunidade eram o Padre e o Médico. O Padre buscava nos ensinar as coisas que achava que deveríamos aprender antes que se realizasse na rua; hoje percebo como nos fizeram acreditar em verdades transitórias (por ignorância; equívocos e necessidade de manterem um sistema; não acredito na má fé). A figura no médico representava o arauto da cura das doenças, não existia a promoção da saúde. O nosso prefeito era conhecido como “Zé bundinha”, quando na realidade deveria ser “bundão”, visto o tamanho, e, o conceito que dele fazíamos. Foi determinado prefeito pelos eleitores e donos da minha rua, o meu grupo (impressionante a necessidade que temos, até hoje, de pertencermos á alguma coisa, por afinidade e necessidade vamos buscar o nosso grupo religioso ou social). Certamente por acharmos que ele quisesse fazer prevalecer com autoridade as suas considerações e avaliação que fazia sobre o comportamento do grupo, verdade que nem sempre conveniente, mas, muito mais por sua intolerância; já o fazia com a arrogância característica dos políticos, hoje de condutas imorais e indecentes, além de ilegais, porém são eles que julgam seus próprios atos, ou as pessoas que eles indicam. Nesse tempo, no dia de malharmos o Judas, seriam eles, a melhor e justa inspiração nesta prazerosa ação; ninguém melhor do que os políticos para serem representantes do Judas (dele não conhecemos o rosto, dos corruptos sim, aparecem na imprensa diuturnamente, podemos ter dificuldade de identificá-los face o número cada vez maior de escândalos).
Nosso principado, além de princesas tinha uma rainha, a dona Beatriz, uma portuguesa, com bigode característico e conservador de sua origem, uma senhora mais idosa que nossas mães, eleita por unanimidade, a avó de todos, devido sua bondade. Um dia quebrei a vidraça da janela da casa dela, fui de pronto me apresentar e pedir desculpas, ela simplesmente me abraçou e me beijou dizendo: não faz mal meu filho, mais importante foi o seu pedido de desculpas. Foi escolha imediata, tornou-se a avó que nunca tive; impressionante como a sociedade pode substituir a função das pessoas e coisas que nos faltam; basta estarmos disponíveis para que as coisas aconteçam. Nós estávamos disponíveis, por isso as coisas aconteciam. Aprendi a lição, nunca mais quebrei a vidraça da sua casa, só a das outras vizinhas, na esperança de ganhar mais abraços e beijos no meu pedido de desculpas. Com meus amigos, formamos uma geração que buscava e trocava afeto.
Nosso tempo foi marcado pela influência do rádio, sistema de comunicação com a aparência de ações sinceras, era fácil a medição, pois, era ao vivo; diferente das manipulações da televisão em busca de audiência, onde os fins justificam os meios. O rádio era nosso companheiro constante e fiel, de presença significativa e responsável na formação da nossa identidade, enlevado por uma cultura que nos emocionava. Ouvíamos o que os nossos pais escolhiam: programa de calouros, música, entrevistas, programa de variedades, propagandas que hoje circulam saudosamente na internet e caracterizaram a nossa geração, e, seguíamos como sempre, as novelas. As pessoas que trabalhavam no rádio compunham uma paisagem agradável, desejável e familiar; entravam em casa quando queríamos e eram recebidos como membro da família.
Para as ocasiões especiais tínhamos o conjunto Rádio-Vitrola, o rádio era substituído pela vitrola, o toca-discos de 78 rotações/minuto. O disco tinha lado “A” e lado “B”. Um dia ganhei do meu pai dois discos; um era sobre história infantil, a “formiguinha” e outro sobre a história que marcaria a minha vida pela adolescência afora, uma canção de amor; iniciava-se o processo de gostar de alguém. O meu sexo estava determinado pelo tipo de genitália; a minha sexualidade, o interesse por pessoa de sexo diferente, o interesse em viver um dia uma história de amor, interesse que nunca me abandonou, iniciou-se com as músicas desse disco; cuja letra dizia: “quando eu era criança, brincava de pique será; ainda me vem na lembrança o meu pé de jacarandá. Ora pega ioiô, ora pega Iaiá, a vida era alegra no pique será. O pique daqui e o pique de lá; será o pegar, será pegar. Uma menina tão linda, que se chamava Zilá, parece que a vejo ainda brincando de pique será. E o pique ....”
Sonhei de olhos abertos e nele revelou-se que a minha Zilá, chamava-se Deise, amiga da minha irmã; a primeira mulher que me possibilitou sentir que éramos pessoas diferentes. Nossas escolhas são diferentes e determinam a forma de pensarmos e sentirmos as coisas; motivos que nos tornam pessoas únicas. Agradava-me começar revelar-me uma pessoa em transformação, e, principalmente saber que éramos homem e mulher. São simplesmente fantásticas as descobertas. A atração revelou-se uma sensação de difícil entendimento e explicação. Posteriormente a esta descoberta e nova sensação, aprendi que nem sempre é possível fazer escolhas por quem queremos ou deveremos estar atraídos; a atração simplesmente se revela e, nos compete apenas aceitamos ou não. Recentemente, encontrei a minha Zilá, favorecido pela tecnologia atual que possibilitam encontros, mesmo que virtuais, podem ser carregados de reais emoções. Informou que só na sua adolescência descobriu que seu nome não era com “s” e sim com “z”. Mais uma vez, ser Deise ou Deize, não era o mais importante. O valor de uma pessoa só pode ser traduzido pelo o que ela nos representa. Mais uma vez, sorte a minha, conheci uma Deise e encontrei a mesma Deize. Neste encontro tive oportunidade de dizer a ela que tenho muitas saudades dos beijos que trocamos atrás do jacarandá; que nunca foram dados. Podemos considerar que o desejo é uma necessidade característica dos seres vivos, particularmente os humanos. O desejo busca mostrar o que necessitamos para a realização da satisfação, do prazer. Minhas primeiras relações sexuais foram com algumas das amigas da minha irmã. Só agora começo a contar para elas; nunca souberam e isto hoje é apenas um detalhe. As homenageava durante o banho ou no quarto de dormir, solitária e solenemente. Agradeço a elas por tanto gozo produzido.
Leio com um olhar e entendimento diferente, carregados de emoções, o mesmo livro que um dia na década de 50, do Clube do Livro, eu li e me impressiona até hoje, “Os meninos da Rua Paulo”, do escritor Húngaro, Ferenc Molnár. O cenário do livro é uma rua, de um bairro afastado na cidade de Budapeste. O local da minha infância é a Rua Marcial do bairro da Moóca, o portal da Zona Leste, próximo ao Centro da Cidade de São Paulo.
No local onde morou a minha infância, junto com as pessoas que compunham o capítulo mais importante da minha história, nos sentíamos importantes, tínhamos um mundo próprio; só nosso. Tínhamos que ocupar um espaço, delimitado, e, como todo ser vivo, teríamos que defender o nosso território. Nele construímos nossos castelos, nos apropriamos gradativamente dos seus arredores para descobrirmos novos horizontes. Junto com reis e rainhas, estabelecemos como todos os animais no seu habitat, uma hierarquia, influenciado pela condição física e emocional dos elementos que compunham a nossa “matilha”, o nosso grupo social. Essa era a composição das pessoas e dos elementos que determinariam a forma de viver este período, o mais importante na vida de uma pessoa na construção da sua identidade, edificando momentos que servirão para determinar nossas futuras ações.
Mais do que um simples quadrilátero demarcado por ruas, praças, avenidas, conjuntos habitacionais, fábricas, parques, centro esportivos ou igrejas cuja presença era marcada pela badalada dos sinos; o bairro era identificado pela qualidade de vida que poderíamos praticar. O cenário que compunha o nosso território era o nosso universo, para nós a vida só acontecia aqui. Tudo mais era simples coadjuvante. Neste universo nos aventurávamos a experimentarmos o prazer da liberdade, sem compromissos e contas para pagar. Hoje recordamos com saudades, um tempo bom, que os anos e a modernidade se encarregaram de levar.
A minha gente, que morava em bairro de indústrias e industriários, era alegre, festeira, amiga, de valor. Nossa cultura suburbana não nos permitia termos precocidade excessiva; nosso ambiente, era a realidade; sem artificialismo e sofisticação. Éramos marcados por dois sentimentos importantes na construção e manutenção de uma amizade: sinceridade e confiança. A aproximação entre as pessoas era característica expressiva. As portas das casas eram abertas, não só para a saída das pessoas, mas, para principalmente para permitir a entrada de quem quisesse, e, a senha era uma simples saudação de encontro. Nossas tardes tinham cheiro de pão assando, de café com bolo; o bom é que sempre acabávamos comendo desse cheiro. O vizinho era o membro mais próximo na composição da família; presença obrigatória nas reuniões, independente do motivo; mais do que reunidos, estávamos unidos. Tudo era motivo de festa e os penetras eram tão bem-vindos quanto os convidados.
A existência de um único aparelho de televisão, que iniciava suas atividades, era suficiente para que todos assistissem, era o televizinho.
Geração genuína desprovida da maldade consciente; existiam naturalmente as maldades humanas. Revelava-se um entendimento ingênuo, suas ações eram espontâneas.
Modernidade era o telefone na padaria (pagava-se a ligação), e, a caderneta para anotar a operação chamada: “comprar fiado” (na quitanda e na padaria)
As minhas ruas eram sonolentas, com raríssimos carros passando, e estes, com motoristas cuidadosos, pois, tinham consciência que estavam invadindo um espaço criado pelo homem, que servia de lugar para realizarmos nossas brincadeiras.
Sociedade matriarcal, as mães, avós, tias, amigas da mãe, eram as portadoras do conhecimento e partilhavam com contos os mistérios da vida. Impossível pensar um universo sem as mulheres.
O bairro era um grande teatro, a rua o palco, os moradores eram os verdadeiros artistas, o cenário era o da época: campeonato mundial, festa junina, páscoa, natal, aniversários, procissões em festas religiosas, desfile das escolas e sua fanfarras, carnaval, etc. Cada um tecendo a idéia que esta possibilidade de momentos de real descontração e felicidade pudesse ser levada para os anos seguintes.
Esse foi um período possível de termos a oportunidade de sermos realmente autênticos. Fomos o que quisermos ser: artilheiro de futebol, exímio esportista, príncipe encantado, mocinho, bandido, herói. Hoje, as pessoas desse tempo carregam a sensação de viverem no exílio.
Diferente dos heróis do Cazuza que morreram de over-dose, nossos heróis morriam bravamente na defesa de um ideal ou de morte natural.
Dos que viveram nestes mágicos ambientes, alguns lembram saudosamente e outros presenciaram, melancolicamente, a transformação do seu bairro, física e socialmente.
Experiências como as vividas pelos meninos da Rua Paulo (há mais de cem anos), e, os meninos da minha ou qualquer rua, perceberam que o mundo é um só; teimosamente procura-se fragmentá-lo.
Mais do que defendermos o nosso bairro por saudosismo, queremos de fato preservar a imagem ideal da nossa alegre juventude.
Nossa casa era pequena e humilde, o que tínhamos de melhor era o nosso quintal, cujo tamanho era tanto maior quanto mais nos aventurássemos, a rua.
Hoje resta a lembrança de um tempo bom e a presença de arranha-céus, as ruas foram invadidas por caminhões e motos, até de automóveis, sem nenhum respeito pelas pessoas. O vizinho deixou de ser amigo e tornou-se num suspeito. O cenário onde as crianças exercitam o a formação de sua identidade são delimitados por paredes, com teto que os impede de perceberem que o céu é azul; como nós, as crianças também andam descalças, antes com pé no chão, agora no carpete. O personagem principal na vida das crianças de hoje surgem na tela do computador; a socialização não é feita mais com pessoas e seus sentimentos, são com imagens virtuais. Estão destinadas a vencer a qualquer preço, pois, só isso interessa: vencer.
Estas são as realidades atuais, quais serão as próximas?
A natureza, sábia como sempre, se encarregará que seja construído um tipo de ser humano adaptado ao novo estilo de vida e a sociedade, sem perceber, está possibilitando a formação de uma identidade para a pessoa do futuro que saberá realizar as suas escolhas.
Não tenho certeza se a minha infância foi melhor do que a dos meus filhos; e, que será obrigatoriamente melhor do que a dos meus netos. A única certeza que tenho é que foram e serão diferentes.
Considero as palavras de: Carlos Drummond de Andrade - “há duas épocas na vida, a infância e a velhice, em que a felicidade está numa caixa de bombons”. Victor Hugo – “não ter nada para fazer é a alegria das crianças e a infelicidade dos anciãos”. Epicuro – “as pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo”.
Concluo: Aprendemos arrumar os cabelos todos os dias; segundo nossas mães, porque era necessário. Porque não nos ensinaram a arrumar o coração?
O nosso amor
Era ilusão, eu sempre soube! Poderia ter terminado quando nasceu; Não foi possível, em mim floresceu.
Nosso encontro, mesmo que maravilhoso, Poderia ter sido um sentimento passageiro, um relance; Quem sabe apenas um breve romance.
E eu poderia ter seguido em frente o meu caminho, de coração vazio, Sem as marcas das lembranças da tua agradável presença. Livre para amar, em outros amores me realizar.
Em você fui despertado para um festim de contemplação; foi fascinação. Sempre estás comigo, não importa com quem estou e nem o tempo que passou. É prazer e renuncia. Como tatuagem, você em mim ficou.
Quisera pegar a sua mão e acariciar o teu corpo; Redescobrir a vida, e com um beijo transformar, o que foi ilusão Numa significativa e duradoura paixão.
Inquieto passo as noites, ansioso pelo dia despertar; Na esperança em ter mais uma oportunidade em te encontrar; Desejando dormir para sonhar, sonhar em te ver para te abraçar.
E se, mesmo assim tudo for apenas um sonho, Dele não quero acordar; Quero uma nova conquista: o meu amor, amar!
Nosso encontro, mesmo que maravilhoso, Poderia ter sido um sentimento passageiro, um relance; Quem sabe apenas um breve romance.
E eu poderia ter seguido em frente o meu caminho, de coração vazio, Sem as marcas das lembranças da tua agradável presença. Livre para amar, em outros amores me realizar.
Em você fui despertado para um festim de contemplação; foi fascinação. Sempre estás comigo, não importa com quem estou e nem o tempo que passou. É prazer e renuncia. Como tatuagem, você em mim ficou.
Quisera pegar a sua mão e acariciar o teu corpo; Redescobrir a vida, e com um beijo transformar, o que foi ilusão Numa significativa e duradoura paixão.
Inquieto passo as noites, ansioso pelo dia despertar; Na esperança em ter mais uma oportunidade em te encontrar; Desejando dormir para sonhar, sonhar em te ver para te abraçar.
E se, mesmo assim tudo for apenas um sonho, Dele não quero acordar; Quero uma nova conquista: o meu amor, amar!
Estresse e Ansiedade
O estresse e a ansiedade são fenômenos naturais entre os seres vivos, particularmente o humano (não existe vida sem eles). Podemos minimizar os seus efeitos deletérios, eliminá-los nunca.
1) É com estresse que a vida começa, é com estresse que a vida termina e é com estresse que ela torna-se mais intensa.
2) O ser humano, como os demais, foi gerado na presença de tudo (alimento, afeto, oxigenação, segurança materna ... enfim... com condições que possibilitam a existência de um novo ser ). Mãefilho são uma única expressão. O filho é da mãe. Albergado no ventre materno, nosso nicho protetor, fornece os meios necessários para atender as nossas necessidades (biológicas, psíquicas, sociais e existenciais ...espirituais). No parto, há separação da mãefilho (agora é mãe / filho...apartados). Após o corte do cordão umbilical, as condições existentes para garantir a vida não estão mais presentes...o tempo todo... . É preciso ser oferecido os “insumos” para serem atendidas as necessidades humanas. Por quem serão realizados, quando, de que forma e com a qualidade e intensidade desejada?
3) É preciso considerar que a primeira sensação ao virmos ao mundo é de morte, por asfixia, pois, foi interrompido o fornecimento de oxigênio e a eliminação de gás carbônico no corte do cordão que unia mãe e filho. O primeiro ato voluntário que fazemos por nós mesmos é o ato respiratório; 90% das pessoas não sabem respirar e 10% acham que sabem.
4) Fomos expulsos do paraíso, surge a sensação de abandono, de pecado, que fizemos algo errado, de injustiça. Junto com a vida extra uterina, surgem dois elementos naturais, o MEDO e a sensação de MENOS VALIA, com baixa auto estima . São dois inimigos cruéis que nos impedem de desfrutarmos o prazer em plenitude. Por isso que a presença dos pais na vida de uma criança, pelo menos até os sete anos, são importantes, para podermos nos tornar adultos mais seguros.
5) A ansiedade surge e é desenvolvida naturalmente. Fomos gerados na ”presença de tudo” e agora a nossa personalidade será construída na “ausência de tudo”. O choro da criança é manifestação da fome, pela ausência do alimento (fome é a ausência do alimento, gerando uma necessidade para manter a vida e obtermos prazer); o desespero de uma criança é o clamor para o atendimento de uma necessidade (afeto, segurança, conforto. ..), cuja ausência provoca medo e/ou ansiedade. Temos ansiedade de alguma coisa...para alguma coisa... e medo que não tenhamos na medida certa; armazenamos, com medo que um dia algo ou alguém nos falte, mais do que garantir a vida, nos faltará o prazer de estarmos vivos.
6) Que valor tem as coisas quando delas não precisamos? Água ou alimento, sem sede e fome, podem ser nauseantes. Que valor tem a presença de uma companhia se não os sentimos a sua falta? Têm presença marcante nas nossas vidas, as coisas que nos faltam.
7) Amamos as pessoas ou coisas por que precisamos delas? Ou precisamos delas por que a amamos?
8) Viver é naturalmente MUITO complicado, mas, simplesmente FANTÁSTICO, quando compreendemos os fenômenos, entendemos o trabalho como missão e damos um sentido especial para as nossas vidas.Eu preciso de você porque te amo.
9) Por favor: “Não me esqueça e nem me abandone”.
1) É com estresse que a vida começa, é com estresse que a vida termina e é com estresse que ela torna-se mais intensa.
2) O ser humano, como os demais, foi gerado na presença de tudo (alimento, afeto, oxigenação, segurança materna ... enfim... com condições que possibilitam a existência de um novo ser ). Mãefilho são uma única expressão. O filho é da mãe. Albergado no ventre materno, nosso nicho protetor, fornece os meios necessários para atender as nossas necessidades (biológicas, psíquicas, sociais e existenciais ...espirituais). No parto, há separação da mãefilho (agora é mãe / filho...apartados). Após o corte do cordão umbilical, as condições existentes para garantir a vida não estão mais presentes...o tempo todo... . É preciso ser oferecido os “insumos” para serem atendidas as necessidades humanas. Por quem serão realizados, quando, de que forma e com a qualidade e intensidade desejada?
3) É preciso considerar que a primeira sensação ao virmos ao mundo é de morte, por asfixia, pois, foi interrompido o fornecimento de oxigênio e a eliminação de gás carbônico no corte do cordão que unia mãe e filho. O primeiro ato voluntário que fazemos por nós mesmos é o ato respiratório; 90% das pessoas não sabem respirar e 10% acham que sabem.
4) Fomos expulsos do paraíso, surge a sensação de abandono, de pecado, que fizemos algo errado, de injustiça. Junto com a vida extra uterina, surgem dois elementos naturais, o MEDO e a sensação de MENOS VALIA, com baixa auto estima . São dois inimigos cruéis que nos impedem de desfrutarmos o prazer em plenitude. Por isso que a presença dos pais na vida de uma criança, pelo menos até os sete anos, são importantes, para podermos nos tornar adultos mais seguros.
5) A ansiedade surge e é desenvolvida naturalmente. Fomos gerados na ”presença de tudo” e agora a nossa personalidade será construída na “ausência de tudo”. O choro da criança é manifestação da fome, pela ausência do alimento (fome é a ausência do alimento, gerando uma necessidade para manter a vida e obtermos prazer); o desespero de uma criança é o clamor para o atendimento de uma necessidade (afeto, segurança, conforto. ..), cuja ausência provoca medo e/ou ansiedade. Temos ansiedade de alguma coisa...para alguma coisa... e medo que não tenhamos na medida certa; armazenamos, com medo que um dia algo ou alguém nos falte, mais do que garantir a vida, nos faltará o prazer de estarmos vivos.
6) Que valor tem as coisas quando delas não precisamos? Água ou alimento, sem sede e fome, podem ser nauseantes. Que valor tem a presença de uma companhia se não os sentimos a sua falta? Têm presença marcante nas nossas vidas, as coisas que nos faltam.
7) Amamos as pessoas ou coisas por que precisamos delas? Ou precisamos delas por que a amamos?
8) Viver é naturalmente MUITO complicado, mas, simplesmente FANTÁSTICO, quando compreendemos os fenômenos, entendemos o trabalho como missão e damos um sentido especial para as nossas vidas.Eu preciso de você porque te amo.
9) Por favor: “Não me esqueça e nem me abandone”.
Comportamento Humano
O comportamento das pessoas relaciona-se com a herança genética, histórico social, formação de valores, ideologia, crença religiosa, fé, meio ambiente, circunstâncias... me emociona a forma de pensar de José Saramago...”tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui. Quando partir deste mundo, partirão duas pessoas, sairei de mão dada, com essa criança que fui”. Aprendi que esta criança está sempre presente em nossas vidas; eu cuido dela e neste ato encontro o prazer, ela nunca me engana.
Non ducor duco
(não sou conduzido conduzo)
Estes dizeres constam no brasão do município de São Paulo cujo lema é conduzir e não ser conduzido. Sempre citei em aula, com o objetivo de uma reflexão essencial, procurando mostrar que na vida temos duas opções: sermos conduzidos pela forma de pensar dos outros ou, determinamos o sentido que pretendemos ofertar às nossas vidas; a escolha é pessoal. Conduzir a própria vida implica na necessidade em liderar as escolhas, em buscar o conhecimento que possibilita inovar a maneira de pensar e produzir mudanças na forma de agir para sentir melhor a vida.
As nossas ações, ou inércia, dependem da forma como pensamos e idealizamos a vida. Temos em torno de 40 mil á 60 mil pensamentos por dia. Mas, de quantos temos realmente o controle? Não sei; apenas sei que devemos conduzir conscientemente o que queremos pensar (quando possível) e na forma como podemos projetar nossas vidas (em função da realidade) ou o mundo encarregar-se-á de fazê-lo ao seu modo.
Para que ocorra um pensamento há necessidade da existência de um “espaço” na nossa mente. Obrigatoriamente esses espaços vazios serão sempre preenchidos. Devemos conduzir as nossas idéias de forma positiva, construtiva, edificante, para que não sejam esses espaços ocupados pela mente coletiva (consciência coletiva, o que pensa o mundo), pois esse pode criar situações à partir de um conhecimento equivocada ou informações inverídicas e as pessoas começam acreditar e assimilar como verdades universais. Sofremos influências significativas das agências de notícias (um comitê escolhe o que devemos ser informados e a forma de fazê-lo); das instituições á serviço da política partidária (preocupadas apenas com interesses pessoais); dos ambientes das organizações (na maioria das vezes para atender uma política institucional, e, realizada por aqueles que dizem ser a uma posição da empresa e não das pessoas que por ela respondem); dos ministros das confissões religiosas (que interpretam o que chamam de livros sagrados conforme o seu momento); dos vizinhos, nem sempre convenientes (conseguem aconselhar os outros com tanta propriedade que se esquecem de praticar na própria vida); e, dos amigos pessimistas ou não(parecem decoradores, inovam na vida dos outros, mas, têm uma atitude conservadora na sua pratica de vida).
É bom lembrarmos que a ociosidade é a oficina do diabo (onde elaboramos os pensamentos destrutivos). Portanto, devemos procurar manter a mente ativa, alimentada com idéias inspiradoras para que possam nos nutrir convenientemente e permitir que a vida possa “fluir” de maneira mais harmônica (de problemas nunca estaremos livres, por isso devemos nos afastar de conflitos ou das pessoas que só produzem problemas; já nos bastam os que ocorrem naturalmente). Vivemos num planeta representado por um espaço infinito de mistérios e um oceano psíquico de tormentas; temos motivos suficientes para dizermos que a “sociedade está doente” (como Caetano Veloso diz em sua canção: de perto ninguém é normal). As pessoas formam uma mente única que sempre nos influencia. Viver é administrar; administrar é estabelecer prioridades. Portanto, vivermos melhor nos obriga: á resistirmos o comando dessa mente coletiva; em selecionarmos as informações que irão sugestionar a forma de pensarmos, que determinarão as nossas ações (a resposta da somatória das nossas condutas é que irão determinar o nosso tipo de vida).
Hoje, o comportamento humano mais comum entre as pessoas é a indiferença. As inquietações estão hipnotizadas e o mundo jaz na mão do maligno. Aceitar as coisas, passivamente, é cada vez mais fácil e evidente. O lema que deveria nos inspirar mudou a sua ordem, agora é “sou conduzido não conduzo” (deixa a vida me levar/ vida leva eu).
Temos que estar vigilantes para selecionarmos o que deverá fazer parte do nosso subconsciente. As pessoas indiferentes tornam-se naturalmente descuidadas, preguiçosas e recusam-se a preencher a mente com conhecimento que nos aproxima da verdade, da realidade. Na vida só podemos “colher” o que “semearmos”. Para conquistarmos e mantermos a saúde, a harmonia, o sucesso, a tranqüilidade, o prazer, a alegria, devemos plantar hábitos saudáveis, devemos pensar e agir na promoção do nosso bem estar e colaborar com os outros. A relação causa/efeito é a dinâmica da vida, para nos sentirmos bem devemos agir bem. Responsabilizarmos as nossas dificuldades á fatalidade, á falta de sorte, á condição do carma, ao destino e escolhas previamente determinadas ou á simples vontade de Deus, não é uma solução saudável.
As ocorrências na vida não poupam ninguém. Os religiosos, os possuidores de fé inabalada e os de atitude justa, todos nós, estamos submetidos aos mesmos fenômenos. O que muda é maneira de entender e reagir no enfrentamento das ocorrências da vida e conseqüentemente no resultado final. Diante das dificuldades, algumas pessoas apenas se lamentam e choram; outras tomam atitudes para resolverem os conflitos, e, aproveitam a oportunidade para fabricarem lenços.
Deus não nos ofertou simplesmente a vida; capacitou-nos para vivermos com prazer e contemplação. Para que vivamos bem, devemos conduzir as nossas vidas segundo a orientação das leis da natureza, para isso é necessário conhecê-las. O ser humano pode ser representado por um conjunto de necessidades: - biológicas: satisfação fisiológica (alimentação, repouso, sexo); - psíquicas: emocionais (respeito, valorização, sentido para a vida); - sociais: relações (ser aceito e pertencer a um grupo social); - existenciais: espirituais (transcender para realizar-se no outro; a busca da verdade, da justiça, de Deus; a contemplação da natureza).
Acreditar na possibilidade de vivermos uma vida harmônica é acreditar na vontade de Deus e nas potencialidades da criação. É tornar-se um agente responsável. É acreditar e promover a possibilidade de que o melhor irá acontecer e se efetivar. Entretanto, é tarefa pessoal a condição de conquistar o melhor. Para isso devemos estabelecer estratégias seguras que nos garantam o prazer de nos sentirmos vivos, com uma vida realizada de satisfações, significativas, mesmo que aparentemente pequenas. Dependemos do lema: non ducor duco.
Estes dizeres constam no brasão do município de São Paulo cujo lema é conduzir e não ser conduzido. Sempre citei em aula, com o objetivo de uma reflexão essencial, procurando mostrar que na vida temos duas opções: sermos conduzidos pela forma de pensar dos outros ou, determinamos o sentido que pretendemos ofertar às nossas vidas; a escolha é pessoal. Conduzir a própria vida implica na necessidade em liderar as escolhas, em buscar o conhecimento que possibilita inovar a maneira de pensar e produzir mudanças na forma de agir para sentir melhor a vida.
As nossas ações, ou inércia, dependem da forma como pensamos e idealizamos a vida. Temos em torno de 40 mil á 60 mil pensamentos por dia. Mas, de quantos temos realmente o controle? Não sei; apenas sei que devemos conduzir conscientemente o que queremos pensar (quando possível) e na forma como podemos projetar nossas vidas (em função da realidade) ou o mundo encarregar-se-á de fazê-lo ao seu modo.
Para que ocorra um pensamento há necessidade da existência de um “espaço” na nossa mente. Obrigatoriamente esses espaços vazios serão sempre preenchidos. Devemos conduzir as nossas idéias de forma positiva, construtiva, edificante, para que não sejam esses espaços ocupados pela mente coletiva (consciência coletiva, o que pensa o mundo), pois esse pode criar situações à partir de um conhecimento equivocada ou informações inverídicas e as pessoas começam acreditar e assimilar como verdades universais. Sofremos influências significativas das agências de notícias (um comitê escolhe o que devemos ser informados e a forma de fazê-lo); das instituições á serviço da política partidária (preocupadas apenas com interesses pessoais); dos ambientes das organizações (na maioria das vezes para atender uma política institucional, e, realizada por aqueles que dizem ser a uma posição da empresa e não das pessoas que por ela respondem); dos ministros das confissões religiosas (que interpretam o que chamam de livros sagrados conforme o seu momento); dos vizinhos, nem sempre convenientes (conseguem aconselhar os outros com tanta propriedade que se esquecem de praticar na própria vida); e, dos amigos pessimistas ou não(parecem decoradores, inovam na vida dos outros, mas, têm uma atitude conservadora na sua pratica de vida).
É bom lembrarmos que a ociosidade é a oficina do diabo (onde elaboramos os pensamentos destrutivos). Portanto, devemos procurar manter a mente ativa, alimentada com idéias inspiradoras para que possam nos nutrir convenientemente e permitir que a vida possa “fluir” de maneira mais harmônica (de problemas nunca estaremos livres, por isso devemos nos afastar de conflitos ou das pessoas que só produzem problemas; já nos bastam os que ocorrem naturalmente). Vivemos num planeta representado por um espaço infinito de mistérios e um oceano psíquico de tormentas; temos motivos suficientes para dizermos que a “sociedade está doente” (como Caetano Veloso diz em sua canção: de perto ninguém é normal). As pessoas formam uma mente única que sempre nos influencia. Viver é administrar; administrar é estabelecer prioridades. Portanto, vivermos melhor nos obriga: á resistirmos o comando dessa mente coletiva; em selecionarmos as informações que irão sugestionar a forma de pensarmos, que determinarão as nossas ações (a resposta da somatória das nossas condutas é que irão determinar o nosso tipo de vida).
Hoje, o comportamento humano mais comum entre as pessoas é a indiferença. As inquietações estão hipnotizadas e o mundo jaz na mão do maligno. Aceitar as coisas, passivamente, é cada vez mais fácil e evidente. O lema que deveria nos inspirar mudou a sua ordem, agora é “sou conduzido não conduzo” (deixa a vida me levar/ vida leva eu).
Temos que estar vigilantes para selecionarmos o que deverá fazer parte do nosso subconsciente. As pessoas indiferentes tornam-se naturalmente descuidadas, preguiçosas e recusam-se a preencher a mente com conhecimento que nos aproxima da verdade, da realidade. Na vida só podemos “colher” o que “semearmos”. Para conquistarmos e mantermos a saúde, a harmonia, o sucesso, a tranqüilidade, o prazer, a alegria, devemos plantar hábitos saudáveis, devemos pensar e agir na promoção do nosso bem estar e colaborar com os outros. A relação causa/efeito é a dinâmica da vida, para nos sentirmos bem devemos agir bem. Responsabilizarmos as nossas dificuldades á fatalidade, á falta de sorte, á condição do carma, ao destino e escolhas previamente determinadas ou á simples vontade de Deus, não é uma solução saudável.
As ocorrências na vida não poupam ninguém. Os religiosos, os possuidores de fé inabalada e os de atitude justa, todos nós, estamos submetidos aos mesmos fenômenos. O que muda é maneira de entender e reagir no enfrentamento das ocorrências da vida e conseqüentemente no resultado final. Diante das dificuldades, algumas pessoas apenas se lamentam e choram; outras tomam atitudes para resolverem os conflitos, e, aproveitam a oportunidade para fabricarem lenços.
Deus não nos ofertou simplesmente a vida; capacitou-nos para vivermos com prazer e contemplação. Para que vivamos bem, devemos conduzir as nossas vidas segundo a orientação das leis da natureza, para isso é necessário conhecê-las. O ser humano pode ser representado por um conjunto de necessidades: - biológicas: satisfação fisiológica (alimentação, repouso, sexo); - psíquicas: emocionais (respeito, valorização, sentido para a vida); - sociais: relações (ser aceito e pertencer a um grupo social); - existenciais: espirituais (transcender para realizar-se no outro; a busca da verdade, da justiça, de Deus; a contemplação da natureza).
Acreditar na possibilidade de vivermos uma vida harmônica é acreditar na vontade de Deus e nas potencialidades da criação. É tornar-se um agente responsável. É acreditar e promover a possibilidade de que o melhor irá acontecer e se efetivar. Entretanto, é tarefa pessoal a condição de conquistar o melhor. Para isso devemos estabelecer estratégias seguras que nos garantam o prazer de nos sentirmos vivos, com uma vida realizada de satisfações, significativas, mesmo que aparentemente pequenas. Dependemos do lema: non ducor duco.
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